Deixo de lado meus exclusivos problemas pessoais pra abrir espaço a uma discussão um registro que me parece importante, sobre um tema que sempre me afligiu e tem a ver, ao que me consta, com o já tantas vezes dito desconcerto do mundo.
O mote da estória: – é meio escroto, mas vamos lá – o programa MTV True Life, da MTV gringa, que mostrava a estória de 3 gênios, 3 moleques superdotados mas que, a despeito disso – como se a regra, pelo menos do que a gente vê nas tvs, não fosse essa – enfrentavam diversos problemas na sua vida pessoal.
Em síntese, os casos eram os seguintes: um moleque com ouvido perfeito, que aos 14 tocava violino de um modo absolutamente impressionante, encantador, e tinha um puta talento pras matérias acadêmicas. Contudo, vivia afastado e estigmatizado no colégio e queria – veja só, que típico – conhecer como era uma festa de adolescentes.
O segundo era um mongol de nascimento que, por não ter nd que fazer, jogava xadrez pra se destrair e aos 5 anos já era um fenômeno. Veio aos 17 pra jogar comercialmente e sustentava, aos 22, a família. Nessa altura, tinha um BMW e fazia academia – parecia um torurinho. Grande mestre aos 18, era o 5º do mundo antes de ir a um torneio no México, onde esperava ganhar mais $ pra família e subir no ranking.
O terceiro era um geninho, que tinha uma capacidade interessante: raciocínio super-rápido nas exatas e conseguia mandar pra memória de longo prazo quase tudo o que aprendia – ou seja, memorizava pra caramba as coisas. Queria, aos 14, ir pra faculdade (ou melhor, Stanford), mas foi rejeitado porque lhe faltava destaque.
Algumas observações rápidas:
1- se o violinista nascesse na Europa dos séculos XVII-XVIII eu tenho certeza que estaria arranjado e seria uma personalidade, freqüentaria as melhores festas da Corte sem se preocupar – bem, isso se tivesse destaque e tivesse a chance de tocar um violino, pq podia ser simplesmente um coitadito camponês ou um mendigo de rua. Mas eu fiquei pensando: será que foi vantagem ele nascer no século XX, na potência das potências?? Talvez ter surgido num contexto de maior atraso não lhe teria feito mais FELIZ??
2- Porra, o moleque enxadrista – acho que Var é seu nome – é bom pra cacete mas enfrenta uma puta pressão diária com essa estória de preciso ganhar pra sustentar minha família e trazer mais conforto a eles. Putz, a habilidade dele o tirou da Mongólia, o que me parece um grande feito, mas essa rotina dele não me parece, em verdade, invejável. O cara tem de se preocupar com ganha pão da família que sai diretamente dele!!! Essa realidade sem dúvida é familiar a muitos, muitos. Não a mim, graças a Deus, ou melhor, em parte não a mim, que só sinto uns reflexos disso de vez em quando mas tem sido bem compensador. O ponto é um só: embora seja gindo de louvores aquele que exerce bem o papel de arrimo da família, isso não é justo consigo próprio. Quem quiser assumir este papel deve estar ciente de que não é jornada fácil nem agradável, e que a pressão somente aumenta. Cuidado com isso….
3- O terceiro moleque era o mais feliz, ao que me parece. Tinha um aparente bom relacionamento social e era bom no que fazia. A reflexão que ele me proporcionou foi a seguinte: porra, que país é esse em que ser um gênio e mandar bem nas matérias não basta para o ingresso numa Universidade??? Que modelo de potência é essa??? Onde está a tão discutida meritocracia??? Poxa, permitam a insatisfação: não bastava ser um gênio, tinha que ter um diferencial??? MEU DEUS DO CÉU, que absurdo!!! Será que os gênios lá estão em tanta abundância assim, que dá pra escolher??? Meu, o moleque trabalhava num laboratório que pesquisava a recuperação da mielina, pra combater uma doença (esclerose múltipla) aos 14 anos!!! Depois da escola, esse era seu bico!!! Ah, por favor, e ele não tinha um diferencial pra Stanford?!!!!
Não pretendo, em verdade, concluir uma coisa com as reflexões que eu fiz sobre esses três. Mas me fica uma úncia sensação: de que esse mundo não é dos mais justos, nem dos mais suaves pra se habitar. Mesmo quando se é agraciado com um dom de poucos (os caras disseram no programa que só 1% da população é de gênios – eu conheço bem mais de 100 pessoas e confesso que apenas uma se aproxima disso, mas não me parece ser de fato genial -) não se tem uma vida muito fácil, não. Será que em outros períodos não era mais fácil? Não se obtinha mais destaque? Sobretudo, porém, fica a idéia seguinte: “
Onde está o reconhecimento por estas habilidades especiais que são postas em favor de todos, em benefício do desenvolvimento da ciência ou das artes, como nos casos apresentados (exceção talvz fosse o enxadrista, mas eu considero esse esporte uma arte)?”
Não falta pra estes caras um merecido destaque (“Ah, eles ganharam um programa da MTV…” – vsf, isso não é porra nenhuma)?
Será que nós ainda não aprendemos, enquanto sociedade, como lidar com eles?
Porque o bom uso de suas habilidades não é bem visto?
A minha resposta é que nós ainda não conseguimos lidar bem com as diferenças e temos medo daquilo que é muito diferente de nós. Com isso, rejeitamos e estigmatizamos, pondo de lado, por temor ou inveja. Mas não pode ser assim, nós temos que acolher cada vez mais, tomando sempre o cuidado, é claro, de evitar que outros possam querer abusar das faculdades e dons que lhes foram concedidos.
Só assim, ao que me parece, vamos principiar o concerto do mundo.
Nossa, esse foi profundo, pacas…
Escrito por Medina
Escrito por Medina
Escrito por Medina