“E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você? Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José? “ Carlos Drummond de Andrade
A semana passada, eu confesso, começou bem envolta em penumbras. As dúvidas, os problemas rotineiros, o excesso de trabalho, o desgaste no trabalho, a pressão do exame vindouro, tudo caminhava num belo camiho destrutivo. Prova cabal e irrefutável disso são os fios pelo caminho e as aftas que surgiram (é, nojento, mas …. verdadeiro).
E aí que, do nada, do pleno inesperado, uma notícia à moda de convencimento, de ordem para a ação, muda tudo. Um “aja”, “faça, que há margem de abertura”. E olha que o passado, nesse tema particularíssimo, foi mais de vontade irrealizada e tênue aproximação do que qualquer outra coisa.
Coincidentemente, durante a noite, uma chance de maior conversa, de mútuo conhecimento. Para mim, acima de tudo, de apontamento de coincidências. Depois de uma longa conversa pelas linhas do msn (que me fez esquecer, sem culpa, do arroz no fogo e do próprio jantar), já passava da uma quando eu “pedi pra saí”, me rendi não bem ao sono, porque àquela altura do campeonato eu e minha cabeça estávamos à mil por hora. Cedi, em verdade, ao cansaço que já me consumia, às costas doídas que pediam o alento de uma cama. E aí, encerrei, com grave pesar de minha parte, aquela conversa que começava despretensiosa pra mim. E fui lidar com outras coisas no pc. Quando vi, já se aproximava das duas. Tornei a retornar ao msn, vi que a interlocutora ainda estava on line, e me bateu uma puta vontade de voltar. Minha fraqueza falou mais alto e eu preferi desligar e ir dormir, não sem antes remoer a seguinte dúvida: será?
Apesar de minha franca timidez em expor o assunto, já que nunca fui lá muito expansivo e extrovertido, a segurança de que pouquíssimos isso lerão me encoraja a ser mais franco.
Quando me deram a notícia de que valia a pena investir, correr atrás, eu não levei muito a sério. Tinha um “será?” muito tênue na minha cabeça pra me fazer romper a inércia.
Contudo, naquela noite, quando eu troquei duas mensagens pelo orkut e vi que a interlocutora estava lá e me perguntava se eu tinha msn, animei. O “será?” robusteceu um pouquinho e se aproximou do “por que não?”. Engatei, com isso, numa conversinha de três horas e um pouquinho, nada demais para o msn, mas de longe o maior tempo em que eu e a cara interlocutora nos falamos. Suficiente pra gente falar de amenidades, pra eu ensair, em resposta, alguns elogios, e pra muitos “uahuhauhahauhau”, “rsssssssssssss”, de coração mesmo, pq a moça é engraçada, mas deliciosamente formal e certinha com o jeito de escrever e se expressar!
De todo modo, como já adiantei, o que me fica da conversa é um conhecimento mútuo e, pra mim, especialmente a descoberta de um monte de afinidades e coincidências. É aí que mora o problema.
O aviso que eu tinha recebido não foi lá muito específico e eu tomei, em síntese, como a informação de que eu tinha sido, no mínimo, elogiado. Bem, confesso que pros meus padrões de beleza, a interlocutora contém integralmente o que, do ponto de vista da atração física, me atrai. Tomei, num primeiro momento, o recado como uma massagem do ego.
Depois da conversa, quando eu finalmente repousei o dorso na cama e olhei pro teto, a sensação que me bati a mil por hora, no monte de perguntas que minha cabeça se fazia e passava em revista a todas, sem se prender ou responder a nenhuma, era se aquilo tudo ia resultar num affair de uma noite. Naquela altura do campeonato, valia, efetivamente, a pena. Não é todo dia que alguém que seguramente estaria na sua wishlist te elogia pra outros (se é que foi isso) e fala contigo, sem te ver há uma cara, sei lá, uns 6 meses, com muita receptividade (claro, claro, que eu cogitei a hipótese de ser apenas educação, mas a abertura que eu dei pro encerramento da conversa, não atendida, diga-se de passagem, me fazem crer que não).
O gostinho de toda essa quarta-feira, lá pelas 2:30 da manhã de quinta, era que eu tinha ganhado uma bela ficada. Um ótimo presente do papai Noel, um pouquinho atrasado, mas tudo bem…
O problema (ou a solução, nem eu sei bem) é que eu não sou propriamente adepto dessas ficadas de uma noite, especialmente com uma pessoa absolutamente desconhecida mas também quando se trata de uma conhecida, porque nunca soube lidar com o dayafter e os que se seguiam. Isso é o mote pra entender a mudança.
Na quinta, acordei radiante, preocupado com mil coisas, fui como um tiro vender minha força de trabalho a preço de banana (ah, tá bom, não é banana, mas tá perto disso se a gente for compara), ouvi 2.572 lamúrios do colegiado que me acompanha. Mesmo assim, passei o dia feliz da vida, alegrão. Dormi cedo, pq o cansaço bateu, e segui com meus trabalhos – estudo que é bom, nada.
Veio a sexta-feira. E hj, depois de milhões de vezes pensando no mesmo assunto (eu adianto, sou BEM inseguro, às vezes, ou não, não sei…. huahuhuahuahua), eu começo a mudar o meu jeito de encarar as coisas. E aqui, bem aqui, o cerne do perigo.
Ao invés de considerar a ocorrência como apenas um belo começo de ano no quesito pegação, como a maioria dos meus amigos, por exemplo, faria, eu não consigo pensar assim. Ela não é pra mim, de longe, um pedaço de carne de açougue, mais uma beldade fungível, oca como um bambu, mas bela de fisionomia, que posso trocar por outra ainda mais bela e torneada e cada vez mais vazia de significado e de sentido. Não me basta – e nunca bastou – satisfazer o meu desejo físico pura e simplesmente – e olha que ele não falta e é bem intenso -. Não tem sentido! Tudo isso vai ruir, essas formas durinhas e consistentes ficarão flácidas e murchas – não, silicone, botox & cia ltda. não bastam pra resolver todos os problemas do mundo – e o que vai sobrar? Ah, eu respondo, aquele belo ocado. Essa idéia sempre me fez procurar cada vez mais a compatibilidade de pensamento, a possibilidade de se manter uma conversa. Pode soar tosco e idiota pra muitos, mas ver uma mulher mostrando sua inteligência a torto e a direito é uma coisa linda, única, na minha opinião.
Por esse motivo, fiel às minhas tradições, já nessa sexta, depois de um dia de ego a mil, eu já começo a me perguntar se não era hora de voltar a namorar de novo ou, no mínimo, de estabilizar num relacionamento, de buscar cumplicidade. Eu encerrei um ciclo mas tenho mais um 5 anos pra pastar nessa vida, antes de começar a realizar plenamente meus desejos. Mas ando, mesmo assim, cansado dessa vida sozinha e nômade. Aí, tendo em conta tudo o que aconteceu, eu já começei a me perguntar se não vale a pena investir pra valer na interlocutora. A resposta vem lépida: vale, vale muito.
“Mas, qual a questão, então?”, alguém podia perguntar???
É simples, caríssimo: eu estou planejando uma casa sem conhecer o terreno, sem saber se ele existe. Eu estou preocupado em detalhes extramamente futuros que não têm, contudo, nenhuma concretude. Não se justificam, portanto. Ah, peraí, não se justificam de um ponto de vista racional…. e nesse campo emotivo, se tem uma coisa que eu não sou é racional.
Em resumo singelo: acho que eu estou novamente me apaixonando, porque as compatibilidades aparentam ser muitas. Mas temo, e temo por mim, principalmente, se tudo isso estiver sendo muito precipitado, e o elogio não passar de um comentário retribuidor sem qualquer 2ª intenção. E se a receptividade se encaminhar apenas para o estabelecimento de mais uma amizade bem construída, por causa de tantas compatibilidades e da compreensão mútua, pq, afinal de contas, não somos diferentes em vários pontos. Enfim, e se a paxonite aguda que parece ter me pegado (não, não quero me entergar agora, tão facilmente) mais uma vez se frustrar??? Será que, como da última vez, eu vou precisar de uns três anos e de um choque de contato pra superar?? Ou dessa vez amargo uma década??
E agora, José, o que faremos???