Família, família…

Fevereiro 24, 2008

Caríssimos,

 

Perdoem a ausência, mas este mês está dos mais complicados. Pra resumir a ópera, saio de casa às 7:00 e volto às 23:00, beeemmm cansado. Pouca vezes a música “Capitão de indústria” fez tanto sentido e esteve tão em voga na minha playlist. Tanto que faço minhas as palvras da Nat nesse post aqui.

 

Tinha bolado uns posts legais no fim de semana passado, mas o cansaço me venceu e eles ficam pra uma próxima oportunidade.

 

Quero falar sobre uma conversa próxima de uma discussão que eu tive com minha mãe ainda há pouco. É, mais uma vez, um questionamento sem pretensões universalizadoras, ao contrário, é bem intimista.

 

Conversávamos sobre os assuntos da família, que se mantém lá no interior, enquanto eu e minha irmã permanecemos desgarrados do rebanho aqui na metrópole. O tema foi o aniversário da minha irmã, que ocorreu essa semana e não foi lembrado pela Velha Guarda do pessoal. Quando eles falaram comigo, dias depois, é que comentei en passant a comemoração que tivemos por aqui – aliás, só mesmo um vínculo estreito como esse pra me fazer compactar ainda mais a rotina de sono de uma noite, mas isso é outra conversa.

 

O fato é que a galera só ficou sabendo quando eu disse e hoje, quando encontraram a minha mãe, disseram que haviam ligado hoje, com dias de atraso, e cumprimentado. Minha genitora ficou bravíssima com o fato deles se referirem a ela em diminutivos, como “coitadinha”, “pobrezinha, ela estava trabalhando em pleno sábado”, “tão miudinha” e assim por diante, e, especialmente, pelo fato de que se fosse o aniversário de outros primos, filhos de uma das irmãs da minha mãe, certamente não haveria equívoco ou esquecimento, porque aquele era o ramo preferido pela família.

 

Eu tentei efetuar alguma defesa, mais pra minimizar a crítica e a animosidade dela, porque conheço a peça que é minha mãe. O fato é que não consegui, e ainda ouvi dela que (1) a família só gosta de quem segue a cartilha deles e (2) felizes aqueles que não a seguem, porque tem um monte de gente a menos pra dar satisfação e, principalmente, não tem que “acertar” com eles. Arrematou observando que praquele pessoal é um pecado terrível ser feliz, que só interessa contar mazelas, sofrimento e percalços, e como minha irmã é sempre positiva e nada disso conta, eles não teriam motivo pra gostar da minha irmã e lembrar de seu aniversário.

 

Bem, o comportamento dissidente da minha mãe com a Velha Guarda, grupo que se resume num dos lados dos ascendentes dela e que, por um monte de circunstâncias, é o que mais se parece com a noção de família, tanto pra ela quanto pra mim, tem raízes profundas que devem remontar à infância dela e à disputa, natural, entre os vários irmãos de um mesmo tronco. Um ponto de relevo foi a preferência da Velha Guarda por uma de suas irmãs, aparentemente bem mais “certinha” do que a minha mãe. Ressalto o “aparentemente”.

 

Com a vinda minha e da minha irmã, o negócio tomou outra dimensão, porque se começou a discutir de certo modo os papéis de cada um em relação a nós. A Velha Guarda tentava, de certo modo, tomar o lugar dos meus pais pra si, claro que de modo muito suave e dissimulado. Eu mesmo, ainda bem criança, era uma bela massa de manobra e só hoje consigo divisar com alguma capacidade de discernimento tudo o que ocorria. Isso ocorreu e deve ter reavivado os problemas.

 

Bem, mas porque estou postando isso? As afirmações da minha mãe, que, segundo ela, resultavam de toda uma tarde de ruminância, agora atingiram a mim. E embora eu tenha negado razão a ela, começo a acreditar que há ao menos um fundo de verdade.

 

Quando ela diz que não há espaço para estranhos, acho que ela tem razão. Eles nunca souberam mesmo lidar com as diferenças e eu confesso que ainda tenho dificuldades com isso, a despeito de ter mudado, e muito, nesse aspecto. Confesso, mais, que uma das maiores diferenças que eu verifiquei em relação ao meu comportamento pré e pós-faculdade foi o quanto eu aprendi a tolerar as diferenças e a conviver com as desigualdades. Em como eu percebi não ter a receita infalível para o sucesso, já que comportamento diferentes produziam, academicamente, resultados muitas vezes bem melhores do que os meus. Permito-me observar que isso foi um choque e me levou a uma profunda crise sobre se meu estilo de vida era correto e se eu estava no rumo certo, porque não me sentia, como ainda não me sinto, lá muito feliz.

 

Por outro lado, as pressões externas e a necessidade de dar satisfações sempre me incomodaram, tanto que minha vida pessoal costuma ser um segredo de Estado que não compartilho com ninguém. Apesar dos meus namoricos no interior, nunca apresentei nenhuma namorada, receoso do impacto que isso ia causar na família e, em especial, na Velha Guarda, e ainda hoje a idéia me soa desconfortável. A questão da vida profissional e acadêmica também me pareceu sempre difícil de relatar, porque eles nunca entenderam direito o que eu fazia aqui e mesmo como era o nome da faculdade, se era federal ou estadual, se eu pagava. Nunca tiveram a capacidade de entender minhas escolhas e, em boa verdade, ainda nem tem, tanto que prefiro poupá-los dos meus estratagemas pro futuro pois percebi que não vou ser entendido e, em suma, não vou ter apoio, talvez nem crítica aberta, só um “você é quem sabe”, recheado de um receio e de conversinhas dizendo que não arriscar o emprego que tenho com meus sonhos e bla-bla-bla.

 

É, mesmo quanto ao terceiro ponto eu tenho de dar algum crédito a ela. Eles definitivamente não sabem lidar muito bem com as alegrias, sempre frisando o que há de mais triste e complicado, o que incomoda, por compartilhar dessa características. Eu confesso que também me sinto assim às vezes, percebo que falo mais das desgraças do que das bonanças, por razões variadas. Primeiro porque minha vida é meio monótona e o que ressaltam são, infelizmente, as agruras. Também porque elas me parecem às vezes tão pequenas que dizer quais são parece remeter ao quão predominante são as positivas. Terceiro porque sou um pouco pessimista, é verdade.

 

O fato é que eu também me interesso pelas desgraças alheias, não porque goste disso, mas porque se eu me preocupo com alguém, a tendência é que eu “viva” os sentimentos dessa pessoa. Estando ela triste, eu fico igualmente triste e preocupado, de verdade (não tenho, aliás, razão nenhuma pra falsear aqui neste espaço). Se ela está bem, eu fico despreocupado, porque, ora bolas, está tudo bem e certo, direcionando minha atenção pra outro lado. Nisso, ao que me parece agora, esqueço de viver as partes boas. È certo, porém, que com isso deixei de viver minha vida, tanto que quando vim pra metrópole, uma das coisas que mais me impressionavam é que eu tinha o dia todo pra pensar em mim, já que os problemas da família estavam separados da minha ação por centenas de quilômetros. E isso foi muito, mas muito salutar.

 

Que beleza, então. Se eu admito que minha mãe está certa, sou obrigado a concordar que, por ser querido pela Velha Guarda, sigo a cartilha deles. Confessei, ademais, que compartilho um pouco do agir deles. E aí, sou como eles? Será que terei o mesmo destino deles? Uma velhice encarapitada numa cadeira espreitando o que acontece com os outros e criticando os supostos erros e falhas, que devem ser imputados, com alguma razão, ao meu jeito distorcido ou inflexível de ver as coisas? Será que eu vou encarar a vida sempre como um fardo infeliz, saltando de desgraça em desgraça como temas das pautas de minhas conversas? Que não vou saber gozar dos frutos dos meus esforços, como não soube ainda? Será esse o meu destino?

 

Noutra hora volto pra responder, devendo alguns comentários nos blogs da Dinha, Nat e Niala, que estão no meu rss e visito sempre de modo corrido no meu trabalho. Ainda escrevo aqui um com o tema que queria, sobre uma música que ouvi semana passada.

 

Perdoem, mais uma vez, a prolixidade. Confesso que só escrevo pra extravazar o que me atinge, e isso sempre vem em torrentes.

Abraços a todos, deste já dois kilogramas mais magro neste mês (hiii, ó eu reclamando da vida de novo…. mas compenso: o mês tá corrido mas tá bom!!)

 

Medina


Um dia nublado…

Fevereiro 5, 2008

O Ministério da Saúde adverte:

O que se delineia adiante é, essencialmente, um registro de um dia bem deprê e das reflexões principais que fiz. Sintomaticamente, diz respeito apenas e exclusivamente ao meu cotidiano, e, além disso, é beeeem longo, de modo que deve soar maçante. Está dado o aviso. A persistirem os sintomas, consulte sempre um médico

(ps. nunca entendi esse “A”, sempre achei que “Se” faria muito mais sentido, mas acho que isso deve ser expressão contida em lei pra ser tão repetida)

Hoje não haveria razões para esse post, mas como eu prometi a mim mesmo que faria o registro, mais como um estandarte a me lembrar das dificuldades passadas e do problema em seu retorno, faço a descrição dos sentimentos deprês que me atingiram num dos dias da semana passada.

Bem, quarta-feira eu tomei um mega bolo. E fiquei puto por isso três vezes. Além de tudo que eu fiz pra me preparar e da dúvida que eu trazia comigo sobre se valia a pena ou não esperar, da desculpa esfarrapada no meu trabalho, da pressa(1), não tive uma resposta nem um avisinho de que não ia dar no dia(2). Então, além da frustração, fiquei puto com o silêncio. Não fosse por isso o meu auto-controle já trabalhou forte e me mandou segurar a onda porque havia boas razões para o bolo. De fato, isso existia mesmo e eu não nego. Mas estava puto, inclusive porque eu sabia que não devia ficar tão puto e pôr a culpa em quem me deu o bolo. Logo, fiquei puto comigo mesmo(3), coisa que nunca dá muito certo.

Bem, vamos ao dia seguinte. Não acordei exatamente feliz ou disposto, mas tive de ir ao centro comprar uma bugiganga. É que meu mp3 player havia quebrado dois dias antes e, naquela noite, eu viajaria pro interior, coisa impensável sem música. Pois bem, fui a um centro de comércio específico e, na primeira galeria mais ou menos vaiza, entrei e, na primeira loja, comprei, sem discutir o preço. Testei o aparelho e ainda ouvi (“Só o aparelho tem garantia, o carregador não”). Beleza, tia, um abraço, té mais.

Fui ao trabalho. Cheguei lá, resolvi carregar a bateria do bichinho. Quem disse que o carregador fucionava?? E descobri como eu sou um quadrúpede orelhudo e herbívoro, porque mesmo ouvindo que o maldito carregador não tinha garantia, não o testei, apenas o aparelho. Felizmente, o cabo conector permitia o carregamento via usb.

Veio o trabalho, em si, e as conversinhas paralelas que me fazem amar. Peguei uma bucha medonha. Tava tão bom que uma certa dorzinha que me acomete em épocas de turbulências nervosas me assaltou às três da tarde. Alguém tinha buscopan pra me emprestar?? Lógico que não. E o departamento médico?? Férias coletivas…. Nada que meia hora trancado no banheiro não fizesse passar, ouvindo as perguntas de “O que será que aconteceu?” do lado de fora. Bem, fiquei resolvendo os problemas a até depois do expediente e já estava saindo correndo – pra fazer a mala – quando lembrei que tinha prometido uns ajustes nuns trabalhos da chefe e tinha de fazê-lo naquele momento. Mais uns 15 minutos perdi ali.

Corri pra casa, esquentei a marmita que peguei no almoço, corri pra arrumar a mala e já saía quando vi entrar no msn a responsável pelo bolo da noite anterior (sim, a responsável é a interlocutora de quem tenho falado). A conversa começou, depois dos cumprimentos, com um “Mal por não ter ligado…” O fato é que eu a tenho em altíssima conta e compreendo os percalços que a atingem, razão pela qual não me disse chateado e as mágoas que me atingiam hoje já estão dissipadas.

De todo modo, despedi brevemente e fui terminar a mala. Carregava meu player novo quando o sistema deu um pau violento e, sem tempo, fiquei só com metade das músicas que iria colocar. Naquela altura já era o suficiente pra me deixar bravo. Eis que, em seguida, num esforço pra fazer entrar na mala um mundo de coisas, ouçou um barulho que me atormentou: provoquei um belo rasgo de 10 cm na costura forçando o zíper. Fiquei putísssimo, só procurei o buscopan pra me prevenir e fui embora assim, com a valise semi-aberta.

Cheguei misteriosamente cedo na estação rodoviária e, após uma pequena fila, sentei-me na plataforma esperando o busão. Toquei o mp3 no máximo na pasta de música clássica pra tentar relaxar, sem muito sucesso, porém, graças aos ônibus que passavam de um lado e de outro.

Chega o meu. Espero cautelosamente embarcar a maioria, pra não esbarrar em nenhum conhecido – não, eu não queria papo – e entro com a minha mala, pra evitar demoras no desembarque. Bem, quase atropelo a moça que estava na poltrona do corredor, mas chego à minha. Tendo acomodar a valise embaixo do meu banco e encontro dificuldades. Descubro que a poltrona escolhida tem um maldito degrau embaixo dela, o que impedia a ocultação da bagagem. Com isso, eu não conseguia descer o apoio para os pés. Depois de muitos resmungos e esforços, tirando tudo de dentro da mala pra ver se o apoio descia, virei a mala, invadindo um pouco o espaço da poltrona vizinha e consegui descer o apoio. É, até que as coisas não estavam más. Torei o volume do mp3 e me preparei pra viagem que já começava.

Esperei sentado saírmos da cidade, coisa que podia demorar, quando resolvi reclinar o banco pra aproveitar melhor as bençãos de Morfeu, cuidadosamente provocadas com o auxílio do Dramin. Ah, aí veio minha surpresa. O banco não reclinava. Ou melhor, ele não segurava a posição. Conseguia deitá-lo bem, mas ele voltava em seguida. Tentei por três vezes, mas em todas o resultado foi o mesmo. Pra melhorar, abortei as tentativas porque o sujeito do banco de trás havia encostado uma sacola detrás do meu, sacola essa que ruidosamente caía quando eu reclinava.

Essa foi, em boa verdade, a gota d’água. Não havia outra poltrona vazia. E aquilo era a cereja do bolo, por uma razão bem simples. Daquele jeito eu não conseguiria dormir e passar a noite acordado não é, MESMO, coisa das mais agradáveis. Ia chegar em casa cuspindo fogo e mau humor, hibernaria até de tarde e acordaria com um saudável sentimento de culpa por minha “brabeza”. Num arroubo pessimista, começei a me preparar para a quebra do ônibus, que me parecia o “exaurimento” daquele crime que se havia cometido contra mim (ok, essa é uma piadinha jurídica, interna, portanto), em outras palavras, a coroação de um dia de merda.

Fiquei zumbizando até a primeira parada, remoendo sobre a minha vida. E isso talvez é o que mais valha a pena recordar, a despeito de sua tristeza.

Eu pensava em como tinha motivos para estar feliz. A semana começara bem, eu estava rendendo bem no trabalho, apesar de liquidar algumas buchas homéricas. Em casa, tudo corria bem, as coisas estavam em ordem. A despeito do bolo, eu ainda sentia, como sinto, disposição e receptividade da interlocutora, que passa por uma difícil fase na sua vida, de muitas indecisões, e eu funcionava, com gosto, como seu confidente. Havia, mesmo, conseguido manter boas conversas com ela, e isso era fonte de alegria. Eu já disse, mas não canso de repetir, ela se parece tanto comigo em certos aspectos e, quando diferimos, vejo nela o meu jeito pré-faculdade, de modo que com ela eu só tenho uma compreensão sem limites muito claros e um desejo de fazê-la feliz. Por isso, senti-la receptiva e tatear a possibilidade de nascer algo mais forte do que a amizade – ah, fiquei sabendo que até a mãe dela andava falando bem de mim, apesar de nunca tê-la conhecido, se é que vocês me entendem hehehehe – é algo que enchia de esperanças. No campo acadêmico, vi encerrar-se uma faculdade relativamente complicada e agora, com o canudo na mão (ui!!), descortina-se um plexo de possibilidades, quase sempre melhores do que a atualidade. Na verdade, tenho pelo menos três ofertas de emprego em vista e isso até me incomoda, mas não é assunto pra cá. De qualquer forma, portanto, isso não era uma preocupação. No âmbito acadêmico, então, a semana começou com uma elevada nota num exame preambular ao exercício da profissão, em que obtive uma das maiores notas da faculdade, certamente entre as 20, quiçá entre as 10 primeiras, suplantando gente muito mais inteligente e muito mais esforçada simplesmente com a atenção nas aulas e um esforço lá intenso só nos últimos dias, coisa que deveria manter “cheia” a minha “bola” por algum tempo.

Mas não. Nada disso me ocorria. Eu só sentia e via o que há de pior na minha rotina. Via noites mal dormidas. Uma vida desperdiçada até altas horas defronte o computador, sapeando sem nexo e de modo compulsivo. Falando sobre bobagens e de quatro por uma menina que devo ter visto apenas há três meses atrás, esperando que a vinda dela pra minha cidade se concretizasse em uma saída bem sucedida, mas essa vinda não vinha, apesar de prometida a todo tempo. Eu só conseguia pensar nas manhãs de sonolência e perda de tempo na arrumação de um quarto que nunca terminava e sempre era interrompida pra ir ao trabalho, em que sempre chego atrasado, provocando risinhos e olhares atravessados da colega de trabalho e da chefe. Eu só conseguia pensar em como perdi uma promoção incrível à qual fazia por merecer somente porque a nora do patrão precisava de uma chance. E, especialmente, em como deixei de dobrar meu salário por isso. Em como me desgastava as conversinhas durante o expediente, como tiravam a atenção das minhas tarefas, dos papinhos que testavam a minha paciência, contando as vantagens conseguidas, as proezas da prole, os avanços da vida, dissimulando nisso tudo, de modo milimetricamente planejado, um tom de merecimento – que eu não ouso negar -, uma idéia de bondade e de – arrisco dizer – favorecimento divino. Não que eu refute isso, mas ouvir alguém dizer isso me incomoda. Há coisas que, na minha opinião, não precisam ser ditas, e a fé, a devoção, a bondade, a caridade, são algumas delas. Mas não vem ao ponto, que é a da encheção que é meu trabalho.

Eu pensava só na aspereza da cidade, na contingência da vida. Em como é insossa a comida que almoço, em como me sinto miserável por jantar exatamente a mesma coisa (por não saber/querer aprender/ter tempo para cozinhar coisas por mim mesmo) em quatro dias da semana, tirando um destes pra me alimentar de saborosas esfiras do habibs – ah, e dois miniquibes – supostamente melhores do que as pizzas, mais gordurosas.

Em como me sinto maltrapilho e em como consumir mais se mostra inócuo, porque quase nada que compro me parece bem ao revisitar a peça ao chegar em casa. Em como me cansa chegar do trabalho e olhar a escrivaninha repleta de papéis e em como meu corpo pede descanso assim que me sento pra estudar. E em como essa rotina me parece perfeita para perpetuar a situação em que vivo, já que, sem estudo, não vou galgar porra nenhuma de cargo melhor e vou continuar aí, vendendo baratinho minha força de trabalho, voltando pra uma república, pra dividir os gastos e fazer caber em meu orçamento a vida na metrópole.

Sobre isso, aliás, eu pensava em como consegui guardar o que guardei de $ até agora e, embora não seja muito, via com uma nitidez claríssima como eu era avarento e como, cumprindo uma triste profecia de minha mãe, eu havia me escravizado ao dinheiro que eu ganhava, procurando cada vez mais guardar mais. Eu refazia as contas das aplicações e calculava quanto rendiam por mês, concluindo que, de fato, eu era um trouxa, que vivia muito aquém do poderia e insistia em me sacrificar e em viver cheio de privações de ordens diversas só pra ver aumentar um pouco mais o saldo ao final do mês.

Eu só via, numa oração, a tristeza que era a minha vida. Apesar de manter frescos diferentes argumentos em benefício dela, só enxergava a merda, se me permitem a expressão. E concluía, de modo cristalino, na minha miserabilidade em em como a minha existência parecia vazia e despropositada. Me perguntava porque pretender viver até os 80 se teria mais quase 60 anos de infelicidade!

Eram esses os pensamentos que me assaltavam. Felizmente, e seguramente por intervenção divina, dormi por quatro longas horas e acordei já mais animado. O repouso é uma santa benção. Apesar de acordado no último trecho, cheguei alegrinho em casa, tratei a todos com fineza, até tomei café da manhã (às 05:00), coisa que remotamente faço! Depois, dormi e acordei às 10:00, já tendo me esquecido dos perrengues do dia e da noite anteriores. Hoje, então, nada mais resta daquele amargor, a não ser a lembrança dos pensamentos, que soa agora despropositada e repleta de um “coitadismo”, pra cunhar expressão. Mesmo assim, sinto uma inequívoca verdade em tudo o que disse ou pensei, razão pela qual, como já me adiantei, efetuo aqui o registro de tudo, mais como aviso e reflexão para o balanço de meus dias e das mudanças que se fazem necessárias em meu cotidiano.

Perdoem a verborragia e a prolixidade, mas é um desabafo e precisava ser completo.

Abraços,

Medina


Um comentário sobre os comentários

Fevereiro 3, 2008

Caríssimos leitores,

confesso que fiquei lisongeado com sua atenção e seus comentários. Em boa verdade, não os esperava nem estava preparado para eles. Tenho utilizado esse blog muito mais como um diário virtual, para dar vazão a tantas dúvidas e angústias que me assaltam, sem muita preocupação com a inteligibilidade dos escritos, sensivelmente prejudicada por um interesse exacerbado em cobrir meus rastros e impedir a minha identificação e dos envolvidos nas minhas narrativas. Pretendia, então, acertá-lo para q pudesse ser mais facilmente lido, imprimindo nele um design diferenciado no futuro.

 

Em face desses primeiros leitores, porém, comprometo-me a melhorar meus defeitos desde já.

 

Dito o compromisso, reafirmo apenas o agradecimento pelo tempo empreendido na leitura e, mais ainda, pelos comentários aqui deixados. Eles me conferem um apoio e uma aceitação que é muitíssimo bem-vinda, especialmente em tempos turbulentos, como têm sido estes dias de verão.

 

Mais uma vez o meu obrigado!

 

Registro, apenas, um perdão pelo tom melancólico e sombrio dos últimos dias. Férias são sempre assim e o ano começou muito cheio de pressões e instabilidades – além das metereológicas, claro -. Desanima pensar que julho costuma ser bem pior.

 

De todo modo, deixo aqui meus abraços.

 

 

Medina