Eu sofro quando eu não te vejo, quando eu não falo contigo, quando não te sinto.
Eu sofro quando não te vejo. Quando penso no tempo que passo longe, quando percebo que meu trabalho consegue tomar horas preciosas – e das mais preciosas – de nossa convivência. Eu sofro quando nossas agendas não batem, e quando dá certo, mesmo com a coincidência de cidades, eu sofro por passar tão pouco tempo contigo.
Eu sofro quando não falo contigo. Quando estamos distantes, eu poderia aplacar a tua falta pela conversa. Mas nem sempre as coisas vão bem: eu sofro por não conseguir me comunicar com você. Eu me atormento por não saber introduzir uma conversa, por não usar vocativos que me pareçam adequados, por nunca saber se você está ou não ocupada e se quer, ou não, continuar a falar. Eu não consigo encadear os assuntos a contento e raramente termino a ligação com aquela sensação de satisfação. Eu sofro por me parecer apenas um bom “bad times consigliere“, mas imprestável para os tempos de bonança. Não versado nos temas amenos e na felicidade. Eu me atormento por não saber conversar e por não saber, n’algumas vezes, ouvir, mesmo quando estamos fisicamente um defronte o outro. E eis que você me parece incomunicável.
Eu sofro quando eu não te sinto. Sem te ver e quase sem falar contigo, você me é apenas idéia. E idéia daquelas que esmaecem e perdem sua nitidez com o tempo. Me sinto tão apartado de você que quase não te sinto. É bem verdade que eu ainda me lembro da tua presença tão perto da minha. Lembro da proximidade do teu corpo, dos abraços e cutucões brincalhões, da tua cabeça reclinada no meu ombro. Da tua mão na minha mão. Eu ainda lembro, com lamento, do dia em que enlacei com as mãos a tua cintura e tive tua boca tão perto da minha, tão próxima que podia sentir o teu hálito então temperado pelo álcool.
Eu sofro por perceber que nós hoje nos gostamos com intensidades distintas. Me atormenta a idéia, que definitivamente tento afastar, de que nunca gostaremos um do outro da mesma maneira e que, na verdade, o melhor seria dar de ombros, e deixar de querer colorir essa amizade primária, permitindo que ela crescesse como as demais, com a mesma intensidade e sem os travamentos e embaraços que caracterizam de uma forma tão clara pra mim como deve ser para os outros o quanto eu gosto de ti.
Mas aí, e este o ponto que mais me faz sofrer, eu corro um fundado risco: o de te perder. O de haver queimado uma chance com a qual não tive ainda paralelo em minhas experiências. O de quebrar meu estigma, meu maior estigma, quase que o único restante, que é manter um relacionamento decente com alguém que valha a pena. Eu sei, e só eu sei, como a tua personalidade me fascina. Eu sofro pensando em como me deixei cativar pela sua simpatia, pela sua fragilidade em alguns momentos e pela sua força em outros. Pela sua determinação, pela sua paixão pelo conhecimento, pela sua seriedade intelectual, pelo quanto você é despojada com alguns temas e preocupada com outros. Tudo isso fez de você uma pessoa ímpar pra mim, a minha metade mais semelhante. E eu sofro por perceber que você é a peça que faltava no meu quebra-cabeças, a michelle pfeier deste tony montana, aquela que seria o norte para minha ascenção rumo às estrelas.
Ah, mas eu sinto quão distante isso parece estar. E sofro, pensando que talvez você tenha vindo na minha vida pra que eu pudesse discernir o que me faltava, o que seria o meu paralelo. “Cuidado: veja, admire, entenda, perceba, mas não toque; não é sua”. Tudo isso sem que eu pudesse te ter pra mim. E vejo que o mundo parece ter uma lógica perversa.
E entre tantos sofrimentos, eu penso no que já ouvi: o gostar tem de trazer bons sentimentos, mas não puro sofrimento.
E tentando fazer a conta, pra somar as alegrias que você me proporcionou e proporciona, e subtrair um rol tão amplo de sofrimentos, eu não chego a um resultado matemático, porque o tema não é propício, e nesse labor, sofro ainda mais um pouco.