Menos um dia, mais um ciclo

Meus caros,
Hoje o dia foi daqueles mais bizarros. Cheguei no trabalho animado, já iniciando a contagem regressiva. Eis que me deparo com uma desequilibrada louca gritando ao telefone. E descubro que houve uma devassa no meu lado da sala. Todos os meus processos foram revirados e a os prontos – uns 60 – foram tirados de mim.
Isso me deu uma ponta de incerteza sobre a minha escolha de ontem, mas ainda acho que foi o melhor a fazer. Mesmo colocando em risco minha licença-prêmio do ano que vem, eventual briga se resolverá com um pedido de exoneração da minha parte, diretamente protocolizado na Presidência. Simples assim.
Durante a noite, vi os balanços do mês de abril. O acréscimo foi de pouco mais de R$ 1600,00. Isso, somado ao meu salário-base, irredutível, me garante boa vida aqui pelos meses que se fizerem necessários. Efetivamente, não devo ter medo de exonerar.
Quanto a isso, sinto como se estivesse a cumprir a minha sina. Meu destino.
Sinto a chance de, mais uma vez, recomeçar.
Com efeito, se eu encarei minha vinda pra cá como um recomeço, uma abençoada chance de recomeçar, de efetivar uma reforma íntima, também assim devo encarar meu retorno ao interior.

Vejo como se mais um ciclo da minha vida estivesse pronto pra encerrar e como se já antevisse o outro que se inicia.

Penso que cumpri minha missão aqui. Vim, estudei na faculdade em que devia estudar, graduei, passei na OAB. Fui estagiário, passei a trabalhar e ascendi até o cargo mais elevado que, sob o prisma estritamente jurídico, alguém podia alcançar na estrutura sem ser da Chefia. Cumpri, ao menos de forma mediana, o que me competia no aspecto profissional.

Reformei meu modo de ver o mundo. Tornei-me mais permeável aos aoutros, mais condescendente. Aprendi que nem sempre ou quase nunca eu estou certo, que a verdade é relativa, que há muitas formas de se alcançar um mesmo ponto. Tornei-me mais apto a lidar com as diferenças e com as incongruências, embora às vezes eu não consiga. Tornei-me mais sociável. Fiz amigos no trabalho e, principalmente, fora deles. São uma meia dúzia, mas muito valorosos e muito queridos. Aprendi o que é ser carinhoso com eles e deles receber carinho.Criei, com alguns deles, uma relação efetivamente familiar. E com os parentes deles, uni-me a uma família inteira. Construí aqui, dessa forma, amigos, família e uma identidade.

Ah, desejei. E consegui dar alguma vazão a essa torrente, embora mais, muito mais, seja necessário. Amei. Como amei. Perdi meus sentidos amando. Soube o que é ser tragado por tal sentimento. E sofri, como sofri. Mas tudo cicatriza e desse sentimento só resta o etéreo e fantasmagórico ciúme. Até fui amado, pena que não ao mesmo tempo ou pela mesma pessoa que eu amava. Paciência, é como aconteceu.

Agora que meu trabalho se torna quase insuportável, agora que eu atngi uma reserva suficiente pra sair, agora que as regras de admissão na carreira que almejo mudaram profundamente, exigindo uma preparação mais ampla, mas principalmente agora que não vislumbro mais objetos de desejo alcançáveis e, pelo contrário, desejo sim me afastar dos meus focos anteriores, seja porque tenho dificuldades em conter o ciúme, seja porque outros têm me visto como uma cifra apenas, agora que o carinho dos demais vai perdendo sua importância e eu vou me centrando novamente cada vez mais em mim, agora que minha mãe volta a ser uma grande preocupação, valorizo mais minha família (de sangue) e quero mais voltar. Volto a pensar em escolher SJRP ao invés de I, S ou P. Retornam meus planos de outrora. Constato que a vida é mesmo cíclica.

(Ao tomar banho, voltei a pensar num amplo programa de reforma da minha família. Poderei garantir o sustento e a saúde dos mais velhos. E não esqueci das possibilidades que eu terei de custear a educação de todos os meus primos e, com isso, de preparar uma geração da minha família para abandonar de vez a pobreza ou a classe média, ao lhes permitir meios seguros de sustento e de desenvolvimento dos seus filhos, para aprimorar ainda mais a geração seguite. A chance de fazer deles um time imbatível, que vai se desenvolver, que vai superar, que vai crescer e, insisto, se desenvolver, se aprimorar, progredir em todos os aspectos. Será a chance de instaurar a paz e a auto-suficiência em escala familiar. De unir novamente uma família cujos ramos têm se afastado e que, se eu nada fizer, somente tendem a se distanciar cada vez mais e a levar os meus mais próximos para caminhos tortuosos e obscuros)

A junção disso tudo é que eu assumo que meu tempo aqui se esgotou ou está em vias disso. Das muitas metas que eu previra, várias foram medianamente, pelo menos, atingidas. Outras tantas precisam de atenção – e o campo afetivo é ainda o mais problemático. Mas não importa que não  foram aqui alcançadas. Outro ciclo se iniciará em breve e eu tenho bagagem para melhor enfrentá-lo, para nele consertar o que em mim não consegui ainda reformar. Mais uma chance da vida eu terei para acertar onde errei, para aparar as arestas e afinar a sintonia.

Ontem, ao caminhar pelas ruas chuvosas da cidade, já me aproximando da meia-noite,  senti novamente o ar que eu inspirava. De fato, apesar do adormecimento de anos, eu me sinto vivo de novo. E todo um novo mundo me espera.

Agoniza um jovem. Outro está prestes a nascer. Adeus ciclo velho, adeus rapaz da Capital. Benvindo M. do interior (pela segunda vez).

Vamos proceder em breve às exéquias.

M.

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