Dúvidas e fugas

Falei com minha xará hoje.

Respondi a um e-mail seu. Depois nos falamos por telefone.

Ela colocou em xeque minha decisão de retornar à pátria daqual estou exilado.

Não faz muito tempo eu disse a ela que pensava em continuar trabalhando aqui, num cargo mais simples, menos remunerado mas com mais horas livres. Disse que evitava o regresso por temer que as influências e encheções dos familiares fossem me sufocar e me atrapalhar lá.

Eu tentei argumentar que isso depende de grana, que o martelo só foi batido na questão de parar de trabalhar e que a ideia de regresso tem me agradado muito.

O que está por trás de tudo – embora eu tente escoder dos outros – é simples: dois fracassos no campo afetivo se tornaram o pingo d’água final.  Eu já estava de saco cheio de tudo e da falta de estudo quando todo o celeuma em torno da segunda surgiu. Com ela, a esperança de ter uma razão concreta para permanecer. Sem ela, já tendia com força pra saída. Agora que a primeira, que eu pensava já haver superado, me aparece com namorado, boa praça e amante da música, todas as minhas forças se centram na saída. No fundo, no fundo, é fuga. É não suportar a situação, é não encarar o fracasso.  É não aceitar que poderia ter sido eu a beijá-las, a tocá-las, mas não fui. É não suportar os comentários abonadores que se farão na sala de estar, que escorregarão nas conversas. É bem verdade que eu preservo as minhas relações com todos, congelando-as num ponto em que estão bem e estáveis, evitando que se degringolem. Mas também impeço que continuem e as condeno, de uma ou outra forma, à morte. É curioso. Preciso pensar mais a respeito.

De toda forma, não me sinto à vontade para prosseguir num jogo de máscaras, ocultando e reprimindo meu desejo mais presente, de insatisfação e ciúme. Por isso, exatamente por isso, a decisão de sair me parece tão certa, tão inexoravelmente adequada que a aceito sem muito titubeio.

Em resumo: penso que voltar ou ficar são atitudes válidas. Mas preciso ter certeza dos motivos que me farão decidir por uma ou por outra. Atingindo isso, um abraço. É fazer as malas ou desfazê-las de vez. Ainda tenho muito a refletir e a sopesar a respeito.

C. Medina.

Uma resposta para “Dúvidas e fugas”

  1. Medina Disse:

    Paciência.
    Sair é mais elegante. Mais delicado. Há um motivo aparente.
    Ser grosso ou se sentir incomodado não é útil, nem bom. E cedo ou tarde, as máscaras caem.
    Farei um post sobre isso: a queda das máscaras ou o sufocamento da flor por excesso de cuidado? É o dilema da cruz e da caldeirinha, do espeto e do fogo.

Deixe uma resposta