Sem o peso de mil palavras

Ah, falei.
Meu sentimento é um misto de orgulho e de alívio.
Já vinha planejando o discurso desde domingo e, tendo remoíodo e repassado desde então, estava já agoniado. Titubeei pra começar mas finalmente fiz a ligação. Houve um ou dois assuntos de isca (oferenda sempre marcando presença) e depois eu fiz o gancho dizendo que tinha ficado muita coisa sem falar. E ela disse que também tinha, que tinha ficado deprimida no final da tarde, porque tudo passara muito rápido e havia ainda muito a ser dito. Eu havia sentido o mesmo: ficara feliz na manhã do domingo mas triste já na tarde, porque percebera quão tosco eu havia sido e que grande oportunidade eu perdera para ajeitar as coisas.
Ela havia começado uma carta, eu também havia pensado em fazê-lo, mas estava impaciente demais e temia enrolar cada vez mais as coisas.
E então eu começei a falar. Demorei pra engatar, mas depois que acertei, a coisa fluiu bem e sozinha, com espontaneidade. Disse quando eu percebi que começara a gostar dela, com o específico sonho e que o sentimento daí decorrente tinha crescido até se tornar sufocante, priscilesco e destrutivo. Vi que a gente falava horas mas não se divertia, nem ria mais. E estava incomodado. Quando ela me recebeu mal – não fui tão direto – voltei chateado com ela, que poderia ter me dito que não queria que eu fosse, simplesmente – frisei que ela tinha liberdade para isso -, mas chateado comigo, por ter a certeza de que meu sentimento, que deveria ser uma evolução da amizade, colocara em risco exatamente isso, esse sentimento anterior e maior.
Justifiquei com isso o afastamento: precisava passar a chateação com ela – que acabara com o pedido de desculpas – e precisava me organizar. A vinda dela tinha me mostrado que eu conseguira depurar todo o sentimento nocivo, exagerado, sufocante. Disse que ela ainda mexia comigo, e muito, que tomara minhas atenções na Trash, mas que eu conseguia administrar meus sentimentos e resguardar a nossa amizade, que era possível ela continuar, de um modo parecido como já foi. Por isso eu ficara tão feliz na manhã do domingo.
E ela, em resposta, me disse que começara a perceber as coisas a partir do dia em que a Luiza e a Giovanna apareceram na casa da dela e a fizeram um monte de perguntas. Desde então ela ficou se ligando nas coisas, mas sem muita certeza. Daí ela começou a ligar pontos, a ouvir o que Luiza e Betinho diziam, e a recolher elementos mesmo de mim. Quanto aos nossos telefonemas gigantes, ela percebia que eram uma fuga dela, das obrigações dela, e que causavam culpa, além de – delicadamente – dizer que sentia algo próximo do sufocamento a que eu me referira.
E eis que ela não estava confortável com a minha visita na sexta, e queria dizer toda a verdade, não jogar a culpa no cursinho. Mas achou que seria exagero e não o fez. Mas, estando acuada, se defendeu daquela forma, ficando distante. E achara que tinha corrido tudo bem. Mas veio meu silêncio. E ela contou para a Luiza o ocorrido, mas ela disse que era meu jeito, que eu não queria atrapalhá-la. Mas o silêncio persistiu e ela percebeu a merda que tinha feito, e disse ter sentido culpa.
[Ela pensou, nesse interegno, em que medida o desprendimento dela não era mais fuga, medo de uma relação e de suas implicações, e a psicóloga dela pediu-lhe que apontasse razões concretas para ser assim. E afirmou que era difícil pra ela dizer os limites do sentimento - referindo-se ao meu gostar -, ao que eu concordei- não sei quando ela disse isso]
Por isso estava ansiosa pela vinda, para saber como seria aqui, como eu a receberia. No silêncio prolongado que se seguiu, ela sentiu minha falta, percebeu que havia coisas que ela queria contar, mas não para os outros, só para mim, frisou que havia coisas que ela não queria contar para mim, que eu não aprovaria muito do que ela houvera feito nesse tempo, que ela não saberia como faria se não pudesse dormir aqui no meu quarto e conversasse comigo madrugada a dentro, como soía acontecer.
E que ela havia ficado muito feliz com o resultado, com a percepção de que nós dois, em nossa amizade, podíamos seguir.

Tenho muito o que refletir sobre tudo isso. A coragem de dizer, o alívio decorrente, a fluidez.
O fato dela haver ocultado que antes estivera a fim de mim. Isso me deixa preocupado com o caráter dela, que pode bem mentir em outros aspectos, embora eu concorde que é um campo tão íntimo que eu admito a mentira – ou omissão – com fins protetivos.
A valorização da amizade por mim e por ela, o que traz como corolário um problema: meu ciúme, meu conhecido ciúme, que já deu mostras na trash.
Tantos temas a pensar, tanto alívio no coração. Que sensação maravilhosa. Preciso registrá-la para as próximas ocasiões em que eu titubear ao pretender fazê-lo. Não há porque gestar e remoer se é possível libertar os pensamentos e sentimentos.
Hasta!
C. Medina

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