É curioso pensar no frescor da madurga, no doce e confidente silêncio desta madrugada marcada por uma calma brisa.
É curioso constatar que esse frescor é o mesmo que eu sinto aqui ou no interior, ao contrário do sol, que já pensei ter sido essencialmente diferente entre cada um desses pontos. E é igualmente curioso pensar que isso me impele a querer voltar – ou a me fazer acreditar que o retorno será positivo – para me propiciar aproveitar outras madrugadas como essa, a la “bom vivant”.
É curioso pensar que eu ainda desejo e, mesmo face a suaves mas claras demonstrações de que eu não tenho chances de sucesso nessa empreitada, continuo a desejar.
É curioso perceber que essa persistência é fonte de culpa, raiva e insatisfação, comigo por persistir nalgo que parece com um erro e por ter perdido a chance quando eu tive, mas, em tênue intensidade, com a outra por não se submeter ao meu desígnio presente.
É curioso perceber que o meu silêncio e a minha meticulosidade ainda se mostram presentes e identificáveis para terceiros. E é igualmente curioso perceber o quanto me perturba os desdobramentos que a arte me mostra para a continuidade desse “standart” de conduta: um futuro parco, miserável no que toca a alegrias ou sucessos no campo mais frágil: os relacionamentos interpesssoais.
É curioso perceber e se preocupar com isso mesmo crendo ter a certeza de que eu já mudei, de que eu já não sou aquele tipo puro, de que eu tenho consciência do problema e alguma disposição para superá-lo, ao menos com medo das consequências. A explicação não espanta: talvez eu me sinta mais próximo do tipo puro do que gostaria estar. Talvez ainda haja muito por mudar e superar. Talvez ainda haja muito o que aprender, satisfazer e expressar. E talvez a proximidade de um aniversário torne a marcar a percepção de que cada vez mais eu tenho menos tempo para tudo fazer, aprender e desenvolver.
Enfim, curiosas reflexões por conta do filme “A vida dos outros”, em que, infelizmente, dormi por metade.
Hasta!
C. Medina