A onda que não cessa

Agosto 23, 2009

Acabo de voltar da sessão de “A onda” (Die Welle), que aguardava com ansiedade.

A filmagem tem seu mérito por atualizar a adaptar uma história da Califórnia dos anos 1960 para a Alemanha moderna.

O que mais me intrigou e instigou no filme, contudo, é que esse “experimento” de fato ocorreu. Em duas semanas, um professor, com puro efeito pedagógico, tencionando ensinar como era possível a constituição de uma ditadura de molde fascista, criou-a de fato.

Tudo isso é uma clara demonstração de como a sombra dos totalitarismos nos rodeia a cada dia, assim como nos circundou no passado e, acredito, continuará a espreitar no futuro. Tudo como as vagas, que vão e vem, para novamente tornar a vir e voltar.

O próprio filme aponta algumas das condições necessárias ao desenvolvimento desses grupos: insatisfação social e sentimento de injustiça,  que se traduzem na sede por mudança.

Esses dois fatores, que podem concretamente se ligar a uma série de outros, tal como o desemprego, a exploração, a miséria e a ideia de que há um “inimigo comum” (Irã, Venezuela), no campo político, ou, no caso específico dos jovens que o filme retrata, problemas familiares (Karo e Tim), a inexistência de um objetivo de vida (Jens), que passa ser a comunhão ou o líder, a exitação diante da união, que soprepõe raças (Sinan) e classes (Lisa) e seus benefícios (a interação, a mútua proteção), em contraponto com uma certa sensação de superioridade sobre os não inciados, que se traduz em segregação (as restrições ao acesso de determinados portões).

E esse quadro peculiar é, ao que me parece, válido para qualquer tipo de associação, de grupamento. A sensação de pertencer a um grupo, de encontrar semelhantes, de encontrar apoio nos outros, de fazer parte de um todo maior foi, para mim, inebriante.

Experenciei parte disso em um grupo de jovens, em que o ingresso era secreto e cujos benefícios dentro e fora da cidade são realmente impressionantes.

Mas quantos não o experimentam nas religiões e seitas?

E esse quadro também me parece aplicável aos partidos políticos, mesmo aos partidos acadêmicos, que controlam publicações, próprias ou institucionais (dos Centros e Diretório cujo poder ocupam), onde ronda uma névoa de intolerância e aversão a ideias estranhas às veiculadas por eles.

Sempre que, ligados a um grupo, rejeitarmos o outro, penso que caminharemos a passos largos ao autoritarismo.

Por tudo isso, a grande vantagem do filme é colocar em pauta um tema da ídole humana: nossa suscetibilidade a totalitarismos e a líderes que nos disciplinem, unam e uniformizem. Nos convertam de seres isolados e que apontam para direções diversas para uma massa, única e unidirecionada, que se espalha e expande, soçobrando os que se opõe, quer à nossa orientação, quer se recusem a nos integrar.

Por que isso? Precisamos de dominação, de alguém que nos diga o que fazer? Não sei.

Recomendo: http://www.espacoacademico.com.br/065/65lima.htm


Sentimentos fortes

Agosto 15, 2009

Acabo de assistir ao filme “Má educação” e sou levado, nesse momento, contemplar os sentimentos fortes da paixão e do desejo.
Não disponho de suficiente conhecimento ou experimentação para separá-los e confrontá-los com rigor, mas, ao que me parece, a paixão talvez seja mais ampla e genérica, referente a um querer sem limites e que traz em si um viés de sufocação, de aprisionamento, de subjugação do outro. Esclareço-me: o que se apaixona quer ao outro integralmente, completamente, em todos os campos em que tal seja possível. Até a atenção a terceiros pode ser motivo pra insatisfação, pra luta renhida.
O desejo é mais específico. Penso – com a displicênica dos que creem estar a errar – que ele se reporta ao querer de aspecto carnal, ao querer no que pertine à satisfação da libido.
A despeito de meus equívocos conceituais, estou certo de que me faço entender.
São ambos sentimentos fortes, memoráveis e admiráveis. São forças motrizes das mais básicas, das mais elementares ou, como preferem alguns, das mais primordiais. Mostram-se por meio de impulsos que não nasceram para ser controlados. Conduzem-nos a ações que pareceriam irrefletidas, se fossem analisadas racionalmente. Mas não, eles não integram o campo do racional. Ao contrário! Desejos e paixões não conhecem os limites do racional. Não se submetem às fronteiras e barreiras em que, depois de dissecar e catalogar, encerramos, como se estivessem em caixas, os sentimentos e conceitos que julgamos racionalizados.
Desejos e paixões remetem à liberdade. Pertencem à natureza. Têm a amplitude de um oceano, a intempestividade da tormente e a fúria do tornado, embora possam se manifestar, enquanto latentes, com a leveza da brisa.
São estes sentimentos, como a fome, a inveja ou a fúria, que nos remetem ao que há de mais natural e primitivo. Remetem aos homens que vagavam pelos campos ainda inexplorados, sem fronteiras, civilizações ou cidades. Remetem à liberdade que antecedeu a Era Glacial, que antecedeu as cavernas. Remetem ao que há de mais gutural em nós, e, exatamente por isso, ao que há de mais animalesco. Não por outro motivo que o cheiro e o gosto do objeto do desejo têm tanta importância. E os olhos e a face de quem se vê arrebatado pelo tesão, ou mesmo os sons – guturais – que produzimos na transa e, especialmente, no orgasmo isso bem provam.

Enfim, queria tornar ao começo, remetendo ao filme e como seus personagens poderiam servir para sustentar a diferença proposta entre paixão e desejo. Mas agora já me parece que era tudo misturado. Nem a mim convenço da distinção. Pouco importa. Eu sabia que podia estar errado quando me aventurei na escrita. O mais importante é que eu tenho me descoberto animado, desejoso. Hoje estive a ponto de sair, e amanhã é certo. Estou disposto a recuperar o tempo perdido. E vou fazê-lo.

Sinto-me como Scarface. O mundo é meu.


Pelos pequenos Campos e Vales

Agosto 3, 2009

Aniversário de A. Fomos os cinco: B, D, G, L. Bebi e comi de graça, o suficiente pra considerar que valeu a pena.
D me encheu o saco, muito. Continua naquele ritmo. Na ida, só patada, dela e do betinho. Na volta, ele foi motorista e nós no banco de trás. Um atrapalhando o outro a se deitar no banco. Depois a coisa deu uma serenada: ela veio deitada no meu colo, nós três cantando modas, braços entrelaçados.
No Burger, mesma coisa. Em casa, serenou. Voltaram as patadas.
Dormimos lado a lado e eu ainda acaricie seus cabelos até ela dormir.
Estive excitado, o tempo todo. Me controlei, obviamente. Mas queria estar perto, sentir a mão entrelaçada à minha. Me controlei pelo menos nesse ponto e me arrependi bem cedo do carinho e da atenção.
Se é isso que ela quer dizer com morder e assoprar, lamentavelmente quem mordeu a isca fui eu. Se é pra tratá-la apenas como uma amiga, e me parece que é isso que eu quero, não posso ir atrás dela, dar atenção. A iniciativa para o contato não pode ser minha, mas, uma vez que ela venha, posso corresponder. Acho que aí as coisas atingem um bom termo: eu não a procuro, mas se ela vem, honro a amizade e dou atenção, como daria a L, AH, F, M e mesmo a G ou P.
Quando D e B dão pra me dar patadas e tiradas, me enchem o saco. E isso começa a me incomodar. Se bem sei o resultado, será afastamento. Veremos como me comporto.
Em protesto, anoto que me espremi na cama para que ela pudesse dormir, abraçada ao travesseiro e pegando toda a coberta. Não podia ficar muito perto, caso contrário minha ereção levaria a uma explosão. Me comprimi, passei horas sem dormir, ouvindo roncos e suspiros e gemidos e tremidas alheios até que desencanei e permiti-me roncar. Eles ainda reclamaram, muito, do meu ronquinho.
Numa dessas, ele me disse que eu era bobo e se “fechasse o olho” e desse abertura pra uma experiência bissexual, veria que é tudo a mesma coisa. D prontamente concordou.
Eu fiquei com isso entalado: quem eles pensam que são pra saber do que eu gosto, quais as minhas preferências e o quê eu devia experimentar. Muito me admira, aliás, essa dúvida de B sobre se eu sou mesmo heterossexual. Fiquei entalado, puto mesmo. Depois, fui mexer com ele e acabei dizendo, com “hum-hum” que nós gostávamos de coisas diferentes, ao que ele ficou bravo, bem bravinho, disse que gostávamos das mesmas coisas e ponto final. Eu comecei brincando e o negócio terminou assim. Fiquei meio encabulado e fui dormir.
Vi agora o Mysterious Skin. É um filme interessante. Traça a trajetória de dois jovens que tiveram um ponto de encontro quando crianças, na casa dos oito anos, e cujas histórias vieram a se cruzar de novo apenas mais de dez anos depois, para o esclarecimento de dúvidas e lacunas que permeavam o passado de um deles.
É curioso, quero saber o q B pretende discutir. Há um curioso paralelo com um dos personagens.
Minha situação é bem mais suave, mas remanesce a questão dos lapsos de esquecimento, de uma certa assexualidade por anos a fio (será mesmo?), o temor ao lidar com mulheres, o sangramento no nariz.
Veremos o que ele me dirá.
Hasta!