Não nasci para servir

Março 8, 2008

Caríssimos,

Só uma nota sobre um acontecimento da semana. O tema: trabalho.

No grupo em que trabalho, n’outra unidade, uma discussão culminou com a saída de uma grande conhecida nossa do cargo de chefia. Dizia ela, após o ocorrido, que nunca mais voltaria para qualquer gerência. Uma vaga numa outra seção, porém, fez os planos mudarem e a entrevista ocorreu na semana que se encerrou.

Era claro e inequívoco que ela não havia superado ainda o anterior desligamento, tanto que de cada 5 palavras que ela dizia uma era o nome do superior dela que rompera mais de uma década de relacionamento profissional com muita brutalidade.

Eu lhe perguntava porque ela não havia posto a boca no trombone e espalhado pra toda a filial o que ocorrera, não para achincalhá-lo – embora isso soasse bem – mas para dizer que ela estava novamente livre para ocupar outros cargos.

Ela, porém, disse-me que não faria isso em consideração ao antigo superior e ao nome dele, “para que ele não passasse por constrangimentos“.

Ela fez a tal entrevista e saiu-se, aliás, muito bem. Contando como tinha acontecido, ela já veio com um papinho de que era muito importante ter um chefinho (sim, foi esse o termo) que estivesse sempre presente e que tivesse uma posição muito definida quanto às metas e ao desenvolvimento do trabalho, reiterando, em relação à discussão que culminara com sua demissão, que ela envidou esforços para minimizar os efeitos negativos do acontecimento para o anterior chefe dela.

Bem, pelo visto, a estratégia de se mostrar subordinada, prostrada e submissa a mais um centro de comando frutificou, já que ela recebeu umas tarefas pra fazer como experiência. Eu sei qual será o próximo passo: endeusar o chefe, ressaltando suas qualidades e seu infinito conhecimento. Detalhe: esse é o comportamento que a minha superiora demonstra e sempre demonstrou, a ponto de se referir ao nosso superior como sendo “o amado mestre“.

Bem, quando ouço essa expressão, tenho vontade real de matar, dar uma de Rambo e arrancar traquéias com as mãos. Em relação ao tom de submissão e de pequenez frente aos superiores, confesso que tenho um misto de raiva e pena, porque com esse agir parecem negar que nós todos somos iguais em essência e as diferenças que se notam derivam muito mais das condições e escolhas que cada um fez. Só isso.

Salvo honrosas exceções, os potenciais são iguais. Como cada um emprega (ou pôde empregar) o seu é o ponto chave das diferenças.

Esse tom me faz lembrar de cães, que apanham do dono e voltam, felizes da vida, abanando o rabo, pra tomar mais uma porrada.

Eu, sinceramente, não sirvo pra isso. Todos temos pontos a serem elogiados, é verdade, mas todos somos humanos e, por conta disso, temos um rol grande de defeitos que não podem ser ignorados. Sempre digo que se alguém fosse perfeito, não estaria aqui, andando entre homens, sede da imperfeição.

Tudo isso é pra dizer que o servir, com todo o peso da expressão, não me cai muito bem. Faço apenas uma ressalva: quando o servir me interessa e serve para travestir um mecanismo de obtenção de algo que seja do meu interesse. E aqui, novamente, me decepciono com minhas colegas, porque nelas a idealização já superou, há muito tempo, o servir falsamente dedicado, para cunhar expressão.

Oportuno encerrar com uma breve citação de uma fala de Iago em ‘Otelo’:

Tranquiliza-te, rapaz! Só continuo sob as ordens dele para servir meus propósitos a seu respeito. Nem todos podem ser amos, nem todos os amos podem ser fielmente servidos. Observarás muitos destes canalhas, obedientes de de joelhos flexíveis que, adorando sub obsequiosa servidão, empregam o próprio tempo como se fossem o burro do próprio dono, somente pela forragem e, quando ficam velhos, são demitidos. Chicote nesses patifes honestos!“(grifos meus)

Forte abraço,

C. Medina


Família, família…

Fevereiro 24, 2008

Caríssimos,

 

Perdoem a ausência, mas este mês está dos mais complicados. Pra resumir a ópera, saio de casa às 7:00 e volto às 23:00, beeemmm cansado. Pouca vezes a música “Capitão de indústria” fez tanto sentido e esteve tão em voga na minha playlist. Tanto que faço minhas as palvras da Nat nesse post aqui.

 

Tinha bolado uns posts legais no fim de semana passado, mas o cansaço me venceu e eles ficam pra uma próxima oportunidade.

 

Quero falar sobre uma conversa próxima de uma discussão que eu tive com minha mãe ainda há pouco. É, mais uma vez, um questionamento sem pretensões universalizadoras, ao contrário, é bem intimista.

 

Conversávamos sobre os assuntos da família, que se mantém lá no interior, enquanto eu e minha irmã permanecemos desgarrados do rebanho aqui na metrópole. O tema foi o aniversário da minha irmã, que ocorreu essa semana e não foi lembrado pela Velha Guarda do pessoal. Quando eles falaram comigo, dias depois, é que comentei en passant a comemoração que tivemos por aqui – aliás, só mesmo um vínculo estreito como esse pra me fazer compactar ainda mais a rotina de sono de uma noite, mas isso é outra conversa.

 

O fato é que a galera só ficou sabendo quando eu disse e hoje, quando encontraram a minha mãe, disseram que haviam ligado hoje, com dias de atraso, e cumprimentado. Minha genitora ficou bravíssima com o fato deles se referirem a ela em diminutivos, como “coitadinha”, “pobrezinha, ela estava trabalhando em pleno sábado”, “tão miudinha” e assim por diante, e, especialmente, pelo fato de que se fosse o aniversário de outros primos, filhos de uma das irmãs da minha mãe, certamente não haveria equívoco ou esquecimento, porque aquele era o ramo preferido pela família.

 

Eu tentei efetuar alguma defesa, mais pra minimizar a crítica e a animosidade dela, porque conheço a peça que é minha mãe. O fato é que não consegui, e ainda ouvi dela que (1) a família só gosta de quem segue a cartilha deles e (2) felizes aqueles que não a seguem, porque tem um monte de gente a menos pra dar satisfação e, principalmente, não tem que “acertar” com eles. Arrematou observando que praquele pessoal é um pecado terrível ser feliz, que só interessa contar mazelas, sofrimento e percalços, e como minha irmã é sempre positiva e nada disso conta, eles não teriam motivo pra gostar da minha irmã e lembrar de seu aniversário.

 

Bem, o comportamento dissidente da minha mãe com a Velha Guarda, grupo que se resume num dos lados dos ascendentes dela e que, por um monte de circunstâncias, é o que mais se parece com a noção de família, tanto pra ela quanto pra mim, tem raízes profundas que devem remontar à infância dela e à disputa, natural, entre os vários irmãos de um mesmo tronco. Um ponto de relevo foi a preferência da Velha Guarda por uma de suas irmãs, aparentemente bem mais “certinha” do que a minha mãe. Ressalto o “aparentemente”.

 

Com a vinda minha e da minha irmã, o negócio tomou outra dimensão, porque se começou a discutir de certo modo os papéis de cada um em relação a nós. A Velha Guarda tentava, de certo modo, tomar o lugar dos meus pais pra si, claro que de modo muito suave e dissimulado. Eu mesmo, ainda bem criança, era uma bela massa de manobra e só hoje consigo divisar com alguma capacidade de discernimento tudo o que ocorria. Isso ocorreu e deve ter reavivado os problemas.

 

Bem, mas porque estou postando isso? As afirmações da minha mãe, que, segundo ela, resultavam de toda uma tarde de ruminância, agora atingiram a mim. E embora eu tenha negado razão a ela, começo a acreditar que há ao menos um fundo de verdade.

 

Quando ela diz que não há espaço para estranhos, acho que ela tem razão. Eles nunca souberam mesmo lidar com as diferenças e eu confesso que ainda tenho dificuldades com isso, a despeito de ter mudado, e muito, nesse aspecto. Confesso, mais, que uma das maiores diferenças que eu verifiquei em relação ao meu comportamento pré e pós-faculdade foi o quanto eu aprendi a tolerar as diferenças e a conviver com as desigualdades. Em como eu percebi não ter a receita infalível para o sucesso, já que comportamento diferentes produziam, academicamente, resultados muitas vezes bem melhores do que os meus. Permito-me observar que isso foi um choque e me levou a uma profunda crise sobre se meu estilo de vida era correto e se eu estava no rumo certo, porque não me sentia, como ainda não me sinto, lá muito feliz.

 

Por outro lado, as pressões externas e a necessidade de dar satisfações sempre me incomodaram, tanto que minha vida pessoal costuma ser um segredo de Estado que não compartilho com ninguém. Apesar dos meus namoricos no interior, nunca apresentei nenhuma namorada, receoso do impacto que isso ia causar na família e, em especial, na Velha Guarda, e ainda hoje a idéia me soa desconfortável. A questão da vida profissional e acadêmica também me pareceu sempre difícil de relatar, porque eles nunca entenderam direito o que eu fazia aqui e mesmo como era o nome da faculdade, se era federal ou estadual, se eu pagava. Nunca tiveram a capacidade de entender minhas escolhas e, em boa verdade, ainda nem tem, tanto que prefiro poupá-los dos meus estratagemas pro futuro pois percebi que não vou ser entendido e, em suma, não vou ter apoio, talvez nem crítica aberta, só um “você é quem sabe”, recheado de um receio e de conversinhas dizendo que não arriscar o emprego que tenho com meus sonhos e bla-bla-bla.

 

É, mesmo quanto ao terceiro ponto eu tenho de dar algum crédito a ela. Eles definitivamente não sabem lidar muito bem com as alegrias, sempre frisando o que há de mais triste e complicado, o que incomoda, por compartilhar dessa características. Eu confesso que também me sinto assim às vezes, percebo que falo mais das desgraças do que das bonanças, por razões variadas. Primeiro porque minha vida é meio monótona e o que ressaltam são, infelizmente, as agruras. Também porque elas me parecem às vezes tão pequenas que dizer quais são parece remeter ao quão predominante são as positivas. Terceiro porque sou um pouco pessimista, é verdade.

 

O fato é que eu também me interesso pelas desgraças alheias, não porque goste disso, mas porque se eu me preocupo com alguém, a tendência é que eu “viva” os sentimentos dessa pessoa. Estando ela triste, eu fico igualmente triste e preocupado, de verdade (não tenho, aliás, razão nenhuma pra falsear aqui neste espaço). Se ela está bem, eu fico despreocupado, porque, ora bolas, está tudo bem e certo, direcionando minha atenção pra outro lado. Nisso, ao que me parece agora, esqueço de viver as partes boas. È certo, porém, que com isso deixei de viver minha vida, tanto que quando vim pra metrópole, uma das coisas que mais me impressionavam é que eu tinha o dia todo pra pensar em mim, já que os problemas da família estavam separados da minha ação por centenas de quilômetros. E isso foi muito, mas muito salutar.

 

Que beleza, então. Se eu admito que minha mãe está certa, sou obrigado a concordar que, por ser querido pela Velha Guarda, sigo a cartilha deles. Confessei, ademais, que compartilho um pouco do agir deles. E aí, sou como eles? Será que terei o mesmo destino deles? Uma velhice encarapitada numa cadeira espreitando o que acontece com os outros e criticando os supostos erros e falhas, que devem ser imputados, com alguma razão, ao meu jeito distorcido ou inflexível de ver as coisas? Será que eu vou encarar a vida sempre como um fardo infeliz, saltando de desgraça em desgraça como temas das pautas de minhas conversas? Que não vou saber gozar dos frutos dos meus esforços, como não soube ainda? Será esse o meu destino?

 

Noutra hora volto pra responder, devendo alguns comentários nos blogs da Dinha, Nat e Niala, que estão no meu rss e visito sempre de modo corrido no meu trabalho. Ainda escrevo aqui um com o tema que queria, sobre uma música que ouvi semana passada.

 

Perdoem, mais uma vez, a prolixidade. Confesso que só escrevo pra extravazar o que me atinge, e isso sempre vem em torrentes.

Abraços a todos, deste já dois kilogramas mais magro neste mês (hiii, ó eu reclamando da vida de novo…. mas compenso: o mês tá corrido mas tá bom!!)

 

Medina