Acabo de voltar da sessão de “A onda” (Die Welle), que aguardava com ansiedade.
A filmagem tem seu mérito por atualizar a adaptar uma história da Califórnia dos anos 1960 para a Alemanha moderna.
O que mais me intrigou e instigou no filme, contudo, é que esse “experimento” de fato ocorreu. Em duas semanas, um professor, com puro efeito pedagógico, tencionando ensinar como era possível a constituição de uma ditadura de molde fascista, criou-a de fato.
Tudo isso é uma clara demonstração de como a sombra dos totalitarismos nos rodeia a cada dia, assim como nos circundou no passado e, acredito, continuará a espreitar no futuro. Tudo como as vagas, que vão e vem, para novamente tornar a vir e voltar.
O próprio filme aponta algumas das condições necessárias ao desenvolvimento desses grupos: insatisfação social e sentimento de injustiça, que se traduzem na sede por mudança.
Esses dois fatores, que podem concretamente se ligar a uma série de outros, tal como o desemprego, a exploração, a miséria e a ideia de que há um “inimigo comum” (Irã, Venezuela), no campo político, ou, no caso específico dos jovens que o filme retrata, problemas familiares (Karo e Tim), a inexistência de um objetivo de vida (Jens), que passa ser a comunhão ou o líder, a exitação diante da união, que soprepõe raças (Sinan) e classes (Lisa) e seus benefícios (a interação, a mútua proteção), em contraponto com uma certa sensação de superioridade sobre os não inciados, que se traduz em segregação (as restrições ao acesso de determinados portões).
E esse quadro peculiar é, ao que me parece, válido para qualquer tipo de associação, de grupamento. A sensação de pertencer a um grupo, de encontrar semelhantes, de encontrar apoio nos outros, de fazer parte de um todo maior foi, para mim, inebriante.
Experenciei parte disso em um grupo de jovens, em que o ingresso era secreto e cujos benefícios dentro e fora da cidade são realmente impressionantes.
Mas quantos não o experimentam nas religiões e seitas?
E esse quadro também me parece aplicável aos partidos políticos, mesmo aos partidos acadêmicos, que controlam publicações, próprias ou institucionais (dos Centros e Diretório cujo poder ocupam), onde ronda uma névoa de intolerância e aversão a ideias estranhas às veiculadas por eles.
Sempre que, ligados a um grupo, rejeitarmos o outro, penso que caminharemos a passos largos ao autoritarismo.
Por tudo isso, a grande vantagem do filme é colocar em pauta um tema da ídole humana: nossa suscetibilidade a totalitarismos e a líderes que nos disciplinem, unam e uniformizem. Nos convertam de seres isolados e que apontam para direções diversas para uma massa, única e unidirecionada, que se espalha e expande, soçobrando os que se opõe, quer à nossa orientação, quer se recusem a nos integrar.
Por que isso? Precisamos de dominação, de alguém que nos diga o que fazer? Não sei.
Recomendo: http://www.espacoacademico.com.br/065/65lima.htm
Escrito por Medina
Escrito por Medina
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