A onda que não cessa

Agosto 23, 2009

Acabo de voltar da sessão de “A onda” (Die Welle), que aguardava com ansiedade.

A filmagem tem seu mérito por atualizar a adaptar uma história da Califórnia dos anos 1960 para a Alemanha moderna.

O que mais me intrigou e instigou no filme, contudo, é que esse “experimento” de fato ocorreu. Em duas semanas, um professor, com puro efeito pedagógico, tencionando ensinar como era possível a constituição de uma ditadura de molde fascista, criou-a de fato.

Tudo isso é uma clara demonstração de como a sombra dos totalitarismos nos rodeia a cada dia, assim como nos circundou no passado e, acredito, continuará a espreitar no futuro. Tudo como as vagas, que vão e vem, para novamente tornar a vir e voltar.

O próprio filme aponta algumas das condições necessárias ao desenvolvimento desses grupos: insatisfação social e sentimento de injustiça,  que se traduzem na sede por mudança.

Esses dois fatores, que podem concretamente se ligar a uma série de outros, tal como o desemprego, a exploração, a miséria e a ideia de que há um “inimigo comum” (Irã, Venezuela), no campo político, ou, no caso específico dos jovens que o filme retrata, problemas familiares (Karo e Tim), a inexistência de um objetivo de vida (Jens), que passa ser a comunhão ou o líder, a exitação diante da união, que soprepõe raças (Sinan) e classes (Lisa) e seus benefícios (a interação, a mútua proteção), em contraponto com uma certa sensação de superioridade sobre os não inciados, que se traduz em segregação (as restrições ao acesso de determinados portões).

E esse quadro peculiar é, ao que me parece, válido para qualquer tipo de associação, de grupamento. A sensação de pertencer a um grupo, de encontrar semelhantes, de encontrar apoio nos outros, de fazer parte de um todo maior foi, para mim, inebriante.

Experenciei parte disso em um grupo de jovens, em que o ingresso era secreto e cujos benefícios dentro e fora da cidade são realmente impressionantes.

Mas quantos não o experimentam nas religiões e seitas?

E esse quadro também me parece aplicável aos partidos políticos, mesmo aos partidos acadêmicos, que controlam publicações, próprias ou institucionais (dos Centros e Diretório cujo poder ocupam), onde ronda uma névoa de intolerância e aversão a ideias estranhas às veiculadas por eles.

Sempre que, ligados a um grupo, rejeitarmos o outro, penso que caminharemos a passos largos ao autoritarismo.

Por tudo isso, a grande vantagem do filme é colocar em pauta um tema da ídole humana: nossa suscetibilidade a totalitarismos e a líderes que nos disciplinem, unam e uniformizem. Nos convertam de seres isolados e que apontam para direções diversas para uma massa, única e unidirecionada, que se espalha e expande, soçobrando os que se opõe, quer à nossa orientação, quer se recusem a nos integrar.

Por que isso? Precisamos de dominação, de alguém que nos diga o que fazer? Não sei.

Recomendo: http://www.espacoacademico.com.br/065/65lima.htm


Sentimentos fortes

Agosto 15, 2009

Acabo de assistir ao filme “Má educação” e sou levado, nesse momento, contemplar os sentimentos fortes da paixão e do desejo.
Não disponho de suficiente conhecimento ou experimentação para separá-los e confrontá-los com rigor, mas, ao que me parece, a paixão talvez seja mais ampla e genérica, referente a um querer sem limites e que traz em si um viés de sufocação, de aprisionamento, de subjugação do outro. Esclareço-me: o que se apaixona quer ao outro integralmente, completamente, em todos os campos em que tal seja possível. Até a atenção a terceiros pode ser motivo pra insatisfação, pra luta renhida.
O desejo é mais específico. Penso – com a displicênica dos que creem estar a errar – que ele se reporta ao querer de aspecto carnal, ao querer no que pertine à satisfação da libido.
A despeito de meus equívocos conceituais, estou certo de que me faço entender.
São ambos sentimentos fortes, memoráveis e admiráveis. São forças motrizes das mais básicas, das mais elementares ou, como preferem alguns, das mais primordiais. Mostram-se por meio de impulsos que não nasceram para ser controlados. Conduzem-nos a ações que pareceriam irrefletidas, se fossem analisadas racionalmente. Mas não, eles não integram o campo do racional. Ao contrário! Desejos e paixões não conhecem os limites do racional. Não se submetem às fronteiras e barreiras em que, depois de dissecar e catalogar, encerramos, como se estivessem em caixas, os sentimentos e conceitos que julgamos racionalizados.
Desejos e paixões remetem à liberdade. Pertencem à natureza. Têm a amplitude de um oceano, a intempestividade da tormente e a fúria do tornado, embora possam se manifestar, enquanto latentes, com a leveza da brisa.
São estes sentimentos, como a fome, a inveja ou a fúria, que nos remetem ao que há de mais natural e primitivo. Remetem aos homens que vagavam pelos campos ainda inexplorados, sem fronteiras, civilizações ou cidades. Remetem à liberdade que antecedeu a Era Glacial, que antecedeu as cavernas. Remetem ao que há de mais gutural em nós, e, exatamente por isso, ao que há de mais animalesco. Não por outro motivo que o cheiro e o gosto do objeto do desejo têm tanta importância. E os olhos e a face de quem se vê arrebatado pelo tesão, ou mesmo os sons – guturais – que produzimos na transa e, especialmente, no orgasmo isso bem provam.

Enfim, queria tornar ao começo, remetendo ao filme e como seus personagens poderiam servir para sustentar a diferença proposta entre paixão e desejo. Mas agora já me parece que era tudo misturado. Nem a mim convenço da distinção. Pouco importa. Eu sabia que podia estar errado quando me aventurei na escrita. O mais importante é que eu tenho me descoberto animado, desejoso. Hoje estive a ponto de sair, e amanhã é certo. Estou disposto a recuperar o tempo perdido. E vou fazê-lo.

Sinto-me como Scarface. O mundo é meu.


Pelos pequenos Campos e Vales

Agosto 3, 2009

Aniversário de A. Fomos os cinco: B, D, G, L. Bebi e comi de graça, o suficiente pra considerar que valeu a pena.
D me encheu o saco, muito. Continua naquele ritmo. Na ida, só patada, dela e do betinho. Na volta, ele foi motorista e nós no banco de trás. Um atrapalhando o outro a se deitar no banco. Depois a coisa deu uma serenada: ela veio deitada no meu colo, nós três cantando modas, braços entrelaçados.
No Burger, mesma coisa. Em casa, serenou. Voltaram as patadas.
Dormimos lado a lado e eu ainda acaricie seus cabelos até ela dormir.
Estive excitado, o tempo todo. Me controlei, obviamente. Mas queria estar perto, sentir a mão entrelaçada à minha. Me controlei pelo menos nesse ponto e me arrependi bem cedo do carinho e da atenção.
Se é isso que ela quer dizer com morder e assoprar, lamentavelmente quem mordeu a isca fui eu. Se é pra tratá-la apenas como uma amiga, e me parece que é isso que eu quero, não posso ir atrás dela, dar atenção. A iniciativa para o contato não pode ser minha, mas, uma vez que ela venha, posso corresponder. Acho que aí as coisas atingem um bom termo: eu não a procuro, mas se ela vem, honro a amizade e dou atenção, como daria a L, AH, F, M e mesmo a G ou P.
Quando D e B dão pra me dar patadas e tiradas, me enchem o saco. E isso começa a me incomodar. Se bem sei o resultado, será afastamento. Veremos como me comporto.
Em protesto, anoto que me espremi na cama para que ela pudesse dormir, abraçada ao travesseiro e pegando toda a coberta. Não podia ficar muito perto, caso contrário minha ereção levaria a uma explosão. Me comprimi, passei horas sem dormir, ouvindo roncos e suspiros e gemidos e tremidas alheios até que desencanei e permiti-me roncar. Eles ainda reclamaram, muito, do meu ronquinho.
Numa dessas, ele me disse que eu era bobo e se “fechasse o olho” e desse abertura pra uma experiência bissexual, veria que é tudo a mesma coisa. D prontamente concordou.
Eu fiquei com isso entalado: quem eles pensam que são pra saber do que eu gosto, quais as minhas preferências e o quê eu devia experimentar. Muito me admira, aliás, essa dúvida de B sobre se eu sou mesmo heterossexual. Fiquei entalado, puto mesmo. Depois, fui mexer com ele e acabei dizendo, com “hum-hum” que nós gostávamos de coisas diferentes, ao que ele ficou bravo, bem bravinho, disse que gostávamos das mesmas coisas e ponto final. Eu comecei brincando e o negócio terminou assim. Fiquei meio encabulado e fui dormir.
Vi agora o Mysterious Skin. É um filme interessante. Traça a trajetória de dois jovens que tiveram um ponto de encontro quando crianças, na casa dos oito anos, e cujas histórias vieram a se cruzar de novo apenas mais de dez anos depois, para o esclarecimento de dúvidas e lacunas que permeavam o passado de um deles.
É curioso, quero saber o q B pretende discutir. Há um curioso paralelo com um dos personagens.
Minha situação é bem mais suave, mas remanesce a questão dos lapsos de esquecimento, de uma certa assexualidade por anos a fio (será mesmo?), o temor ao lidar com mulheres, o sangramento no nariz.
Veremos o que ele me dirá.
Hasta!


Tenho desejos maiores

Julho 10, 2009

É curioso o meu momento.
Houve o meu aniversário. D e A vieram. E foi muito difícil lidar com as duas. A veio com um papinho pra L de q me queria mas eu não dava bola e deu umas indiretas de ciúme…
Mas não quero falar sobre isso, relatar o que passou.
Só quero fixar no agora.
E o agora é um sentimento de que D mexe comigo, bastante. A desejo fortemente. Mas ela não dá mais brecha, não das que eu possa ver. Embora eu não esteja mais bobo, o que é ótimo, eu não consigo voltar ao desinteresse de antes. Talvez – e eu assim espero – que seja uma questão de tempo pra eu regressar àquele patamar. Mas enquanto eu não chego, é difícil, muito difícil. Talvez a culpa seja de toda essa carência acumulada. Não importa, o que importa é superar. Mesmo porque, depois da cirurgia, ela vai voltar com a auto-estima elevada, como bem predisse B. E se ela der vazão à lascívia acumulada sob os meus olhos, o que pode bem ocorrer, vai ser doloroso.
Ah, queria ter um botão de liga-desliga na minha cabeça, uma penseira, e tirar isso daqui. Me livrar disso. Eu tenho tanto a crescer, não posso ficar parado aqui.
Tenho desejos maiores,
eu quero beijos intermináveis,
até que os olhos mudem de cor.


Curiosidades numa madrugada

Julho 6, 2009

É curioso pensar no frescor da madurga, no doce e confidente silêncio desta madrugada marcada por uma calma brisa.

É curioso constatar que esse frescor é o mesmo que eu sinto aqui ou no interior, ao contrário do sol, que já pensei ter sido essencialmente diferente entre cada um desses pontos. E é igualmente curioso pensar que isso me impele a querer voltar – ou a me fazer acreditar que o retorno será positivo – para me propiciar aproveitar outras madrugadas como essa, a la “bom vivant”.

É curioso pensar que eu ainda desejo e, mesmo face a suaves mas claras demonstrações de que eu não tenho chances de sucesso nessa empreitada, continuo a desejar.

É curioso perceber que essa persistência é fonte de culpa, raiva e insatisfação, comigo por persistir nalgo que parece com um erro e por ter perdido a chance quando eu tive, mas, em tênue intensidade, com a outra por não se submeter ao meu desígnio presente.

É curioso perceber que o meu silêncio e a minha meticulosidade ainda se mostram presentes e identificáveis para terceiros. E é igualmente curioso perceber o quanto me perturba os desdobramentos que a arte me mostra para a continuidade desse “standart” de conduta: um futuro parco, miserável no que toca a alegrias ou sucessos no campo mais frágil: os relacionamentos interpesssoais.

É curioso perceber e se preocupar com isso mesmo crendo ter a certeza de que eu já mudei, de que eu já  não sou aquele tipo puro, de que eu tenho consciência do problema e alguma disposição para superá-lo, ao menos com medo das consequências. A explicação não espanta: talvez eu me sinta mais próximo do tipo puro do que gostaria estar. Talvez ainda haja muito por mudar e superar. Talvez ainda haja muito o que aprender, satisfazer e expressar. E talvez a proximidade de um aniversário torne a marcar a percepção de que cada vez mais eu tenho menos tempo para tudo fazer, aprender e desenvolver.

Enfim, curiosas reflexões por conta do filme “A vida dos outros”, em que, infelizmente, dormi por metade.

Hasta!

C. Medina


Mas, filhão,

Julho 1, 2009

e não é que INÉRCIA perdeu os “is”?


Sem o peso de mil palavras

Junho 24, 2009

Ah, falei.
Meu sentimento é um misto de orgulho e de alívio.
Já vinha planejando o discurso desde domingo e, tendo remoíodo e repassado desde então, estava já agoniado. Titubeei pra começar mas finalmente fiz a ligação. Houve um ou dois assuntos de isca (oferenda sempre marcando presença) e depois eu fiz o gancho dizendo que tinha ficado muita coisa sem falar. E ela disse que também tinha, que tinha ficado deprimida no final da tarde, porque tudo passara muito rápido e havia ainda muito a ser dito. Eu havia sentido o mesmo: ficara feliz na manhã do domingo mas triste já na tarde, porque percebera quão tosco eu havia sido e que grande oportunidade eu perdera para ajeitar as coisas.
Ela havia começado uma carta, eu também havia pensado em fazê-lo, mas estava impaciente demais e temia enrolar cada vez mais as coisas.
E então eu começei a falar. Demorei pra engatar, mas depois que acertei, a coisa fluiu bem e sozinha, com espontaneidade. Disse quando eu percebi que começara a gostar dela, com o específico sonho e que o sentimento daí decorrente tinha crescido até se tornar sufocante, priscilesco e destrutivo. Vi que a gente falava horas mas não se divertia, nem ria mais. E estava incomodado. Quando ela me recebeu mal – não fui tão direto – voltei chateado com ela, que poderia ter me dito que não queria que eu fosse, simplesmente – frisei que ela tinha liberdade para isso -, mas chateado comigo, por ter a certeza de que meu sentimento, que deveria ser uma evolução da amizade, colocara em risco exatamente isso, esse sentimento anterior e maior.
Justifiquei com isso o afastamento: precisava passar a chateação com ela – que acabara com o pedido de desculpas – e precisava me organizar. A vinda dela tinha me mostrado que eu conseguira depurar todo o sentimento nocivo, exagerado, sufocante. Disse que ela ainda mexia comigo, e muito, que tomara minhas atenções na Trash, mas que eu conseguia administrar meus sentimentos e resguardar a nossa amizade, que era possível ela continuar, de um modo parecido como já foi. Por isso eu ficara tão feliz na manhã do domingo.
E ela, em resposta, me disse que começara a perceber as coisas a partir do dia em que a Luiza e a Giovanna apareceram na casa da dela e a fizeram um monte de perguntas. Desde então ela ficou se ligando nas coisas, mas sem muita certeza. Daí ela começou a ligar pontos, a ouvir o que Luiza e Betinho diziam, e a recolher elementos mesmo de mim. Quanto aos nossos telefonemas gigantes, ela percebia que eram uma fuga dela, das obrigações dela, e que causavam culpa, além de – delicadamente – dizer que sentia algo próximo do sufocamento a que eu me referira.
E eis que ela não estava confortável com a minha visita na sexta, e queria dizer toda a verdade, não jogar a culpa no cursinho. Mas achou que seria exagero e não o fez. Mas, estando acuada, se defendeu daquela forma, ficando distante. E achara que tinha corrido tudo bem. Mas veio meu silêncio. E ela contou para a Luiza o ocorrido, mas ela disse que era meu jeito, que eu não queria atrapalhá-la. Mas o silêncio persistiu e ela percebeu a merda que tinha feito, e disse ter sentido culpa.
[Ela pensou, nesse interegno, em que medida o desprendimento dela não era mais fuga, medo de uma relação e de suas implicações, e a psicóloga dela pediu-lhe que apontasse razões concretas para ser assim. E afirmou que era difícil pra ela dizer os limites do sentimento - referindo-se ao meu gostar -, ao que eu concordei- não sei quando ela disse isso]
Por isso estava ansiosa pela vinda, para saber como seria aqui, como eu a receberia. No silêncio prolongado que se seguiu, ela sentiu minha falta, percebeu que havia coisas que ela queria contar, mas não para os outros, só para mim, frisou que havia coisas que ela não queria contar para mim, que eu não aprovaria muito do que ela houvera feito nesse tempo, que ela não saberia como faria se não pudesse dormir aqui no meu quarto e conversasse comigo madrugada a dentro, como soía acontecer.
E que ela havia ficado muito feliz com o resultado, com a percepção de que nós dois, em nossa amizade, podíamos seguir.

Tenho muito o que refletir sobre tudo isso. A coragem de dizer, o alívio decorrente, a fluidez.
O fato dela haver ocultado que antes estivera a fim de mim. Isso me deixa preocupado com o caráter dela, que pode bem mentir em outros aspectos, embora eu concorde que é um campo tão íntimo que eu admito a mentira – ou omissão – com fins protetivos.
A valorização da amizade por mim e por ela, o que traz como corolário um problema: meu ciúme, meu conhecido ciúme, que já deu mostras na trash.
Tantos temas a pensar, tanto alívio no coração. Que sensação maravilhosa. Preciso registrá-la para as próximas ocasiões em que eu titubear ao pretender fazê-lo. Não há porque gestar e remoer se é possível libertar os pensamentos e sentimentos.
Hasta!
C. Medina


Dúvidas e fugas

Junho 16, 2009

Falei com minha xará hoje.

Respondi a um e-mail seu. Depois nos falamos por telefone.

Ela colocou em xeque minha decisão de retornar à pátria daqual estou exilado.

Não faz muito tempo eu disse a ela que pensava em continuar trabalhando aqui, num cargo mais simples, menos remunerado mas com mais horas livres. Disse que evitava o regresso por temer que as influências e encheções dos familiares fossem me sufocar e me atrapalhar lá.

Eu tentei argumentar que isso depende de grana, que o martelo só foi batido na questão de parar de trabalhar e que a ideia de regresso tem me agradado muito.

O que está por trás de tudo – embora eu tente escoder dos outros – é simples: dois fracassos no campo afetivo se tornaram o pingo d’água final.  Eu já estava de saco cheio de tudo e da falta de estudo quando todo o celeuma em torno da segunda surgiu. Com ela, a esperança de ter uma razão concreta para permanecer. Sem ela, já tendia com força pra saída. Agora que a primeira, que eu pensava já haver superado, me aparece com namorado, boa praça e amante da música, todas as minhas forças se centram na saída. No fundo, no fundo, é fuga. É não suportar a situação, é não encarar o fracasso.  É não aceitar que poderia ter sido eu a beijá-las, a tocá-las, mas não fui. É não suportar os comentários abonadores que se farão na sala de estar, que escorregarão nas conversas. É bem verdade que eu preservo as minhas relações com todos, congelando-as num ponto em que estão bem e estáveis, evitando que se degringolem. Mas também impeço que continuem e as condeno, de uma ou outra forma, à morte. É curioso. Preciso pensar mais a respeito.

De toda forma, não me sinto à vontade para prosseguir num jogo de máscaras, ocultando e reprimindo meu desejo mais presente, de insatisfação e ciúme. Por isso, exatamente por isso, a decisão de sair me parece tão certa, tão inexoravelmente adequada que a aceito sem muito titubeio.

Em resumo: penso que voltar ou ficar são atitudes válidas. Mas preciso ter certeza dos motivos que me farão decidir por uma ou por outra. Atingindo isso, um abraço. É fazer as malas ou desfazê-las de vez. Ainda tenho muito a refletir e a sopesar a respeito.

C. Medina.


Noite de inverno

Junho 14, 2009

Quais influxos me conduzem nessa amena noite de inverno no Oeste?

Preponderam duas sensações.

A primeira se resume ao medo com as implicações da decisão de voltar, agravadas pela percepção de que devo retornar literalmente para a casa de meus pais. Como os desdobramentos podem ser variegados, como a solidão pode ser algo de peso, especialmente no começo, tendo a me preocupar. Temo remoer e lamuriar, temo ver a certeza perder-se em meio ao desespero, especialmente depois dos primeiros tombos.

A segunda marca se refere ao dilema mais comezinho, com seus dois ou três nuances. O primeiro postulado tem algo de gutural, de animalesco. Quero e preciso me mover, me superar, ultrapassar os limites e dar vazão aos desejos que me dominam o corpo, sorver dos meus privilégios de macho. Mas ele tem seu contraponto no último titubeio. A solução me parece ser evitar seu prolongamento e repetir as tentativas, tentar de fato o bote, para errar e errar, até obter sucesso, ainda que o alvo não seja do perfil que me agrada. Os outros dois têm nome, feminino por sinal, e me consternam e confundem pela gentileza e atenção evidentemente extemporâneos. É curioso, porque vêm no momento menos apropriado, justamente quando os sentimentos que nutria pelas duas sofreram baixas históricas. A primeira experimentou minha súbita ausência ao longo de seis meses e, ao que me parece, voltou a ser delicada e interessada, como eu só vira no longínquo dezembro-07, janeiro-08 , apenas porque,  tendo começado a namorar, (1)teme meu permanente afastamento, mesmo porque encontro dificuldades para conter um inesperado tsunami de ciúme. (2)Ou será a pura saudade de quem se apresentava como um amigo confiável? Acho que as duas se combinam. Com relação à outra, a mudança radical se processou há um mês, durante duas semanas. Passei da pessoa mais interessada do mundo para uma que não se sentia confortável em conversar com ela. Optei, então, pelo afastamento puro e simples. Por responder msg e não enviar, para tentar conduzir a relação ao status dos primórdios da amizade. Quando o faço, ela volta a ser simpática. O que concluir? 1) a Fernanda estava certa? 2) ela entendeu o recado e, crendo termos restabelecido a amizade, acredita poder agir com liberdade – e dizer que sente saudades – sem se preocupar com o fato d’eu pensar que ela indica ir além? Acho que a segunda assertiva, mas as certezas só virão depois do encontro face a face. Além do mais, tenho uma conversa pendente, ainda sou credor de uma explicação sobre um pedido de desculpas. Veremos o que virá.

Eis o quadro, ainda que imperfeito.

Lá fora, algo próximo do psytrance ribomba pelos espigões da cidade. As raves atingiram o interior, mas delas não participarei. Ao menos não ainda.

C. Medina.


Menos um dia, mais um ciclo

Junho 2, 2009

Meus caros,
Hoje o dia foi daqueles mais bizarros. Cheguei no trabalho animado, já iniciando a contagem regressiva. Eis que me deparo com uma desequilibrada louca gritando ao telefone. E descubro que houve uma devassa no meu lado da sala. Todos os meus processos foram revirados e a os prontos – uns 60 – foram tirados de mim.
Isso me deu uma ponta de incerteza sobre a minha escolha de ontem, mas ainda acho que foi o melhor a fazer. Mesmo colocando em risco minha licença-prêmio do ano que vem, eventual briga se resolverá com um pedido de exoneração da minha parte, diretamente protocolizado na Presidência. Simples assim.
Durante a noite, vi os balanços do mês de abril. O acréscimo foi de pouco mais de R$ 1600,00. Isso, somado ao meu salário-base, irredutível, me garante boa vida aqui pelos meses que se fizerem necessários. Efetivamente, não devo ter medo de exonerar.
Quanto a isso, sinto como se estivesse a cumprir a minha sina. Meu destino.
Sinto a chance de, mais uma vez, recomeçar.
Com efeito, se eu encarei minha vinda pra cá como um recomeço, uma abençoada chance de recomeçar, de efetivar uma reforma íntima, também assim devo encarar meu retorno ao interior.

Vejo como se mais um ciclo da minha vida estivesse pronto pra encerrar e como se já antevisse o outro que se inicia.

Penso que cumpri minha missão aqui. Vim, estudei na faculdade em que devia estudar, graduei, passei na OAB. Fui estagiário, passei a trabalhar e ascendi até o cargo mais elevado que, sob o prisma estritamente jurídico, alguém podia alcançar na estrutura sem ser da Chefia. Cumpri, ao menos de forma mediana, o que me competia no aspecto profissional.

Reformei meu modo de ver o mundo. Tornei-me mais permeável aos aoutros, mais condescendente. Aprendi que nem sempre ou quase nunca eu estou certo, que a verdade é relativa, que há muitas formas de se alcançar um mesmo ponto. Tornei-me mais apto a lidar com as diferenças e com as incongruências, embora às vezes eu não consiga. Tornei-me mais sociável. Fiz amigos no trabalho e, principalmente, fora deles. São uma meia dúzia, mas muito valorosos e muito queridos. Aprendi o que é ser carinhoso com eles e deles receber carinho.Criei, com alguns deles, uma relação efetivamente familiar. E com os parentes deles, uni-me a uma família inteira. Construí aqui, dessa forma, amigos, família e uma identidade.

Ah, desejei. E consegui dar alguma vazão a essa torrente, embora mais, muito mais, seja necessário. Amei. Como amei. Perdi meus sentidos amando. Soube o que é ser tragado por tal sentimento. E sofri, como sofri. Mas tudo cicatriza e desse sentimento só resta o etéreo e fantasmagórico ciúme. Até fui amado, pena que não ao mesmo tempo ou pela mesma pessoa que eu amava. Paciência, é como aconteceu.

Agora que meu trabalho se torna quase insuportável, agora que eu atngi uma reserva suficiente pra sair, agora que as regras de admissão na carreira que almejo mudaram profundamente, exigindo uma preparação mais ampla, mas principalmente agora que não vislumbro mais objetos de desejo alcançáveis e, pelo contrário, desejo sim me afastar dos meus focos anteriores, seja porque tenho dificuldades em conter o ciúme, seja porque outros têm me visto como uma cifra apenas, agora que o carinho dos demais vai perdendo sua importância e eu vou me centrando novamente cada vez mais em mim, agora que minha mãe volta a ser uma grande preocupação, valorizo mais minha família (de sangue) e quero mais voltar. Volto a pensar em escolher SJRP ao invés de I, S ou P. Retornam meus planos de outrora. Constato que a vida é mesmo cíclica.

(Ao tomar banho, voltei a pensar num amplo programa de reforma da minha família. Poderei garantir o sustento e a saúde dos mais velhos. E não esqueci das possibilidades que eu terei de custear a educação de todos os meus primos e, com isso, de preparar uma geração da minha família para abandonar de vez a pobreza ou a classe média, ao lhes permitir meios seguros de sustento e de desenvolvimento dos seus filhos, para aprimorar ainda mais a geração seguite. A chance de fazer deles um time imbatível, que vai se desenvolver, que vai superar, que vai crescer e, insisto, se desenvolver, se aprimorar, progredir em todos os aspectos. Será a chance de instaurar a paz e a auto-suficiência em escala familiar. De unir novamente uma família cujos ramos têm se afastado e que, se eu nada fizer, somente tendem a se distanciar cada vez mais e a levar os meus mais próximos para caminhos tortuosos e obscuros)

A junção disso tudo é que eu assumo que meu tempo aqui se esgotou ou está em vias disso. Das muitas metas que eu previra, várias foram medianamente, pelo menos, atingidas. Outras tantas precisam de atenção – e o campo afetivo é ainda o mais problemático. Mas não importa que não  foram aqui alcançadas. Outro ciclo se iniciará em breve e eu tenho bagagem para melhor enfrentá-lo, para nele consertar o que em mim não consegui ainda reformar. Mais uma chance da vida eu terei para acertar onde errei, para aparar as arestas e afinar a sintonia.

Ontem, ao caminhar pelas ruas chuvosas da cidade, já me aproximando da meia-noite,  senti novamente o ar que eu inspirava. De fato, apesar do adormecimento de anos, eu me sinto vivo de novo. E todo um novo mundo me espera.

Agoniza um jovem. Outro está prestes a nascer. Adeus ciclo velho, adeus rapaz da Capital. Benvindo M. do interior (pela segunda vez).

Vamos proceder em breve às exéquias.

M.